quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [37]

Uma parte da criança que fomos nunca nos abandona enquanto adultos. Por muito forte que seja a vontade de parecer conveniente, é difícil controlar a característica infantil da curiosidade. É insuportável e inadmissível para qualquer pessoa que alguém diga «Se eu te contasse...» e depois não conte. É uma crueldade inenarrável, pejada de desconsideração. Como prometer uma coisa a uma criança e não cumprir. Mesmo que não resolva - o que é o mais certo -, proponho a criação de uma nova designação jurídica, para formalizar e dignificar a situação: será o segredo de injustiça.

Morta

Só conheci Lady Poggiolini no dia a seguir à sua morte - e pelo seu, temo, ingrato obituário -, mas parece-me que já gosto dela. E gosto de como os italianos dão notícias da morte: «Morta Lady Poggiolini: teneva un tesoro in un puff». Guardar um tesouro num puff, reparem, foi a segunda coisa mais importante que a senhora fez, logo a seguir a morrer (salvo seja). E é tão bonito que «Morta» seja logo a primeira palavra. A gente, apesar da dieta mediterrânica, não costuma fazer disto.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Já ouviram falar da língua azul?

Sem post

«Festival dá voz à deficiência mental»

Talvez o Rui Veloso não ache muita piada à ideia.

domingo, 28 de outubro de 2007

Não é de pequenino que se...

Tento todos os dias escrever sobre a actualidade e não consigo. Dêem-me um telex da Lusa e eu faço tudo bonitinho, by the book. Agora, escrever qualquer coisa inteligente sobre um acontecimento que se passou, no máximo, na semana passada e sobre o qual toda a gente tem uma opinião, isso não é para mim. Também não sei escrever sobre a história, sobre o passado. Nem sei escrever sobre o tempo fenoménico, sobre a teoria da relatividade. A verdade é que eu não sei escrever. Sei passar um cheque, preencher um recibo verde, deixar um recado num post-it profissional, escrever uma mensagem a dizer que vou chegar atrasada e, vez por outra, umas respostas numa folha de exame que, por razões institucionais, não pode ficar em branco; mas escrever é que eu não sei. Só se for sobre coisas que não cabem ou não deviam caber no tempo, só se for escrever coisas que, daqui a vinte anos, vão continuar más e imperceptíveis. Escrever não é para todos. Sobre actualidade, muito menos. Quando for grande, se me for dado esse privilégio, quero escrever assim, como se cantasse.



*Sei que já postei este video, desculpem a repetição.

Quando estou muito triste ouço canções de dor-de-cotovelo, daquelas foleiríssimas e pirosas. Uma vez, devia eu ter uns 12 anos, na minha fase faz-a-tua-própria-telenovela, tinha acabado de ouvir na rádio uma canção do Michael Bolton daquelas desesperantes, o meu pai entrou no quarto e, vendo-me a chorar, perguntou-me, pela primeira vez, se estava apaixonada. Eu não estava e disse-lho. Ele não acreditou. Deixou-me sozinha, depois de tentar descobrir com mil e uma perguntas a razão da minha choradeira ridícula. O meu pai é um bom homem e com a fé que ainda tem na humanidade não sabe que a pré-adolescência de algumas pessoas estúpidas só pode ser uma estupidez.

Acabam de me dizer que tenho «a ligeira tendência para cair um pouco na vulgaridade.» As expressões «ligeira» e «um pouco» fazem com que eu não possa, nem deva, por asseio intelectual, levar a observação a sério.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A conveniência não é um suspiro ou de como são inúteis os amores não correspondidos

Hoje apoquenta-me especialmente uma dicotomia avoenga e imperturbável: os que se divertem e os que não se divertem. Os que se divertem são loucos aos quais tudo é permitido. Abrem a boca e uma pessoa, num impulso primeiro e, quem sabe, determinado por leis físico-químicas altamente volúveis, acredita. Acredita, não há o que fazer, não se pode falar contra a loucura. Os que se divertem fazem e desfazem, dizem e desdizem, são aceitáveis no Universo enquanto forem capazes de ferir e chagar os outros com a mesma facilidade com que enviam uma coroa de flores aos familiares de um morto querido. Os que não se divertem sofrem, caem no logro dos que se divertem. Às vezes, têm a ilusão de que se divertem e oscilam, bipolares, entre a confiança e a desconfiança que sentem e têm nos outros. Os homens que se divertem que eu conheci acham-se ubíquos e capazes. São deuses, de facto; super-homens que conseguem tudo quando bebem ou, simplesmente, quando lhes apetece, sem olhar ao prejuízo das palavras, homens para quem uma vontade basta. A minha incompatibilidade com os deuses ou, em último caso, com o Grande Sacana, tem que ver com uma questão singela e arbitrária de metafísica da terra e da enxada: para haver vida como eu a conheço não basta uma vontade. São precisas duas, pelo menos. Querer alguém que não nos quer é uma oração aberta que, coerente consigo mesma, não encerra sentido. Os sonhos são vazios e não alimentam, e o desejo, a menos que se cumpra, não chega a ser da ordem do real. Não me perguntam como se prova isto? É fácil: dos amores não correspondidos não há quem não recupere. E recupera, muitas vezes, com um amor correspondido do qual nenhuma das duas vontades poderá, alguma vez, recuperar.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Algumas considerações tísico-químicas

Afinal, nós temos medo é do corpo - dizem os especialistas. Da violência da proximidade, da vontade do corpo. Temos medo de fazer aquilo que apetece ao nosso corpo, de sermos nós, em vez do nosso corpo, os árbitros do jogo do mundo com aquilo que somos. Temos medo de polícias e de olhares indiscretos, de foder nas lajes húmidas de um sítio demasiado parecido com o meio da rua, de fraquejar nas palavras e no tempo das palavras. Temos medo da química que não vem em cápsulas, das coisas em geral que não trazem manual de instruções, por mais inúteis que, nas nossas mãos, os manuais de instruções possam ser. Temos medo das coisas que não falam connosco e de, para essas e outras coisas, não ter as respostas na ponta da língua. Mas também temos medo de não dar uso à ponta da língua, não gostamos de ser catalisados, engolidos pela química que não vem em cápsulas. Temos medo de não viver, ou seja, temos medo de viver pouco. A vida não é um direito, não é um vício, não é um fenómeno, não é uma evidência. É uma vontade, um vaivém caprichoso que cheira a orvalho e a eucalipto. As manhãs aproximam tanto quanto as noites cansam ou, na perspectiva do potencial, as manhãs aproximam tanto quanto as noites podem aproximar. De vez em quando, «Bom dia» é a melhor coisa que se pode ouvir e ainda não decidi se gosto da sintaxe do último período.

As cobiçadas terras da Ataboeira merecem tese de mestrado em Retórica e Argumentação

Porque é que Portugal não é um Estado Soberano e Independente Com Intenções Pacificas e Livre de Armas, onde os acentos não são obrigatórios e o príncipe, em vez de palácio, tem «cinco viveiros de ameijoas em Cacela e na Fuzeta»?

E viram bem o rigor que ele empregou na palavra «divulgar-vos-ei»?

Repararam na ligeireza com que ele diz «preto escuro»?

De como empregar a energia, digamos assim, em coisas que, não sendo úteis, exigem o máximo de rigorosidade possível

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Pertenço a um grupo alegremente designado "Aqueles que se pudessem nunca saíam de casa".

Desprezo um bocado aquelas pessoas que se ausentam dos lugares por se terem sentido ofendidas na sua dignidade. Respeito mais aquelas que não chegam a ir aos lugares para não ofenderem ninguém na sua dignidade.

É mau morrer de cancro, mas deve ser pior morrer de capricórnio.

Era uma vez um vento tão influente tão influente que até os aviões se levantavam a seu favor.

Certas paixões podem ser, em provento e missão, muito semelhantes à aviação comercial.

Homo tapiens, uma perspectiva ecológica

Sente-se que os pilotos da TAP estão em greve. O ar cá em baixo está irrespirável. Na verdade, nunca pensei que fôssemos tantos.