segunda-feira, 17 de março de 2008

Uma pessoa

«Sente muita responsabilidade em ser o representante do Papa numa das nunciaturas mais importantes do mundo?
Bem, eu procurei sempre fazer o melhor que posso o meu dever, tentando agradar só a uma pessoa, que é ao Senhor.»

Entrevista a D. Manuel Monteiro de Castro, embaixador do Vaticano em Madrid, por Pedro Ivo Carvalho, na NS' de 15 de Março de 2008 (página 23)

Ponham lá o Zapatero a falar português...

Hoje recebi boleia de uma pessoa que, quando lhe perguntei onde morava, mudou o trajecto para me mostrar a sua casa. Pouco antes, a pessoa que me deu boleia tinha, em caminho, dado boleia a uma outra pessoa que nos fez subir até ao seu apartamento para no-lo mostrar com a afeição de um familiar e o pormenor de um mediador imobiliário. Ainda antes disto, rejeitei um convite para "ficar para jantar" e desprezei a cerimónia para aceitar "pelo menos uma bolacha" antes de sair. Gosto de pessoas.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Ou

quinta-feira, 13 de março de 2008

Eliot Spitzer

A questão é velha e simples: Eliot Spitzer era um bom Governador? Não sei. Fez carreira, segundo o New York Times, a perseguir gente corrupta e, até, algumas redes de prostituição. Estava metido numa, era o cliente número nove. O que deve à coerência um moralista que vai às putas? Nada. E o que deve ao carácter? Só Deus sabe. O que deve à sua mulher? Ela é que saberá do teor do compromisso. Não me importo nada com a incoerência ou com a falta de carácter, até lhes acho piada. Penso, por isso, que Spitzer foi um homem honrado. Mais honrado do que aquele Bill Clinton para quem receber sexo oral (se admitirmos que quem o faz não recebe nada, uma ideia que eu não acarinho de todo) não era ter relações sexuais com Monica Lewinsky. Spitzer ganha porque disse a verdade (repare que repórter do NYTimes se chama Nicholas Confessore, não podia ser mais oportuno).

quarta-feira, 12 de março de 2008

Cuidados paliativos

Se eu fosse linda já ninguém reparava em como sou burra.

Medicina preventiva

Vou escrever as minhas memórias enquanto ainda me lembro delas.

Há coisas que eu devia guardar para mim para impressionar alguém um dia, mas dou-vos tudo.

Z

Quando Ferreira Fernandes plagia é porque já está tudo escrito e, naturalmente, a culpa não é dele.

domingo, 9 de março de 2008

A diferença entre ser e estar, que já fez correr tanta tinta no mundo, é a mesma que há entre estar e não estar. Ser é não estar, estar é estar e, às vezes, não ser.

O Festival Eurovisão da Canção é uma miséria.

Quantos instrumentos?

O senhor moçambicano da escola de música na Almirante Reis que a SIC entrevistou no Jornal da Noite (em reportagem) deve, com certeza, ter ido à tal palestra sobre carisma. Toca guitarra, saxofone, acordeão, piano, bateria e, ao fim-de-semana, arreda o quadro da sala de aula e sobe ao seu púlpito de pastor evangélico.

sábado, 8 de março de 2008

Fui fazer a cobertura terapêutica da manifestação de professores. Impressionante. A dada altura, na Rua Áurea, fotografei um professor com um cartaz que dizia "Não sou comunista, sou professor". A fotografia ficou desfocada. Andei mais um pouco e vi Daniel Oliveira com cara de caso. Terá visto o cartaz?

Vasco Valente

«Se o ensino superior for de facto excelente (e não o travesti que por aí vegeta) e se tiver inteira liberdade de seleccionar alunos (como agora não tem), os professores ficarão com um objectivo, o de preparar as crianças para o ensino superior, que os distinguirá entre si, sem regras de espécie alguma; e que tornará o seu trabalho pessoalmente mais compensador, interessante e útil. Desde o princípio que o Estado democrático não compreendeu esta evidência. Começou as reformas por baixo e não por cima. Aturou sem vergonha os mercenários que exploravam a universidade. E de repente quer que os professores paguem a conta do desastre. Não é admissível.»

Pelos Professores, hoje, na última página do Público.

Porque Cesariny manda «rir de tudo»

Quando não nos rimos das piadas dos outros, tendemos a achar que foi o sentido de humor deles que falhou. Habitualmente, é o nosso que falha.

sexta-feira, 7 de março de 2008

O peido é a ironia do intestino.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Exercício piroso, ultra-rápido, para a amiga-luz

Não penses
que não reparei em ti.
Triste e linda.
Não.
Linda e triste,
que mulher linda que não seja triste
é um bicho que eu nunca vi.

(estrofe anterior publicada com os agradecimentos da Royal Geographic Society)

Quis dar-te o meu ombro,
livrar-te da adversidade,
mas estava presa no escombro
da puta da realidade.

(estrofe anterior seleccionada para a segunda parte da marcha popular de Marvila do ano de 2009)

E depois, e depois?
Morreram os bois,
ficaram as vacas,
e eu,
diligente,
lá higienizei as minhas cloacas.
Deixei-te ir, pois foi,
no teu charme-blazer escuro.
Quando me livrei do docente,
quis-te toda contente,
mas já não soube trepar o muro.

(estrofe anterior com o apoio técnico da ETAR de Almargem do Bispo)


Perdi a cama do teu abraço,
para a cama da estupidez.
O assunto que me fez distante,
imagina/assassina(-me),
é qualquer coisa que eu vou boicotar.
Não,
não são rotinas,
são propinas.
Números omnipresentes,
condições deficientes
da esterqueira onde nos fomos amar.

(estrofe anterior de elevado conteúdo académico-contestatário; pode ferir susceptibilidades)

No fundo
(cava cava coveiro),
sabes que te abracei menos
porque o mais que tudo não podia ser ali.
Hei-de compensar-te, amiga-luz,
pelo tempo que te perdi.

(estrofe anterior solidária com os cadáveres do cemitério de Carnide)

O Bíquo

Mestre na arte da omnipresença, fez o que sabia melhor: abraçou-a com o pensamento. Depois, não se aguentou mais.

Chove. É lindo.

Ciências Sociais

Ser positivista já deu o que tinha a dar. Não volto a utilizar o método científico no luminoso projecto da abolição da metalinguagem bloguística. Agradeço muito a quem comentou, mas isto com comentários é cacoso.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Post com a tacha arreganhada (r dá para riso e dá para raiva)

Odeio quando elas fazem isto.

Patrocinado por 3M Post-it


































Descoberto aqui, o writing room de Will Self em 360º.

Numa loja do meu bairro, Elephant em DVD a 3,90€. Porreiro, pá!

Um leitor pede-me que escreva mais sobre Wittgenstein. Não entendeu nada. Eu também não.

José Pacheco Pereira é director do Público por um dia. Não lhe bastava ser abrupto?

Cabeçalho

Sou assim, instável como um barril de nitroglicerina.

terça-feira, 4 de março de 2008

Para ser presidente não basta ser esperto; é preciso ser preto.

Balbúrdia no Oeste, um filme de Mel Brooks, apareceu em 1974 para abalar sabe-se lá o quê, ainda nós, portugueses, dávamos os nossos primeiros passinhos no andarilho da democracia. Na cena de abertura do filme, um preto responde à letra a um desafio dos seus capatazes brancos. Enquanto trabalha na construção de um caminho-de-ferro com outros pretos, os brancos pedem-lhe que lhes cante uma "canção de pretos" (melhor, de escravos, "a good old nigger work song"); o preto não hesita e arranca um «I get a kick out of you» de fazer inveja a Nat King Cole, com os colegas de jornada em coro idílico, que acabam por acompanhar a segunda estrofe num swing tão anacrónico quanto a escolha da canção em causa.

Alvin Toffler disse a Mário Crespo que ia votar com a sua mulher, Heidi (felizmente, ainda há casais que cultivam a mútua confiança), em Barack Obama, porque «um presidente dos EUA preto leva uma mensagem ao mundo». Parece-me que teria gasto menos palavras se dissesse que vai votar em Obama por Obama ser preto. No filme de Mel Brooks, o preto dá uma marretada na cabeça de um dos capatazes e é condenado à forca; o juiz que o condenou acaba por precisar dele para xerife. Vai desviar as atenções da cidade por onde vai passar o caminho-de-ferro da própria construção do caminho-de-ferro que, como qualquer incineradora de resíduos tóxicos, não interessa à conservação da pacatez daquele lugar. Barack Obama é o xerife preto de Balbúrdia no Oeste. Porque é preto, tornamo-lo presidente; depois, vemos se é competente. O preto de Mel Brooks era esperto, mas não foi isso que o tornou xerife. Obama também me parece esperto e, se o mundo não estiver perdido, haverá quem vote nele por isso.


Inspirações:
Entrevista de Alvin Toffler a Mário Crespo na SIC Notícias
Um Obama à portuguesa para a mesa cinco
Projecto de vida:
Ser o Ferreira Fernandes.
A cena de abertura de Blazing Saddles:

segunda-feira, 3 de março de 2008

Metalinguagem (outra vez, sem emenda)

Googlei-me agora e descobri que há quem pense que escrevo modernices um pouco forçadas. Isto porque lhe faz confusão «o vernaculismo ou palavrão metido à força só para "ser" descontraído ou "moderno" ou "libertário", pondo-se nas tintas para a sensibilidade do leitor», o que, parece, lembra «os piores tempos da revista à portuguesa do depois do 25/4 em que a ideia era "temos que meter palavrões se não não somos livres"»

Gosto genuinamente de palavrões. Admito que a assunção do gosto (e, quem sabe, até o próprio gosto) seja rara e que o uso de palavrões possa ser desconcertante para a sensibilidade de um ou outro leitor. Mas, repare, caro leitor, se o leitor não gosta do palavrão, então o leitor não é leitor. Porque eu vejo no leitor, em o leitor, um criminoso reincidente. Se volta cá, volta consciente de que pode voltar a ler um palavrão. Mas o que é importante, o que vim aqui dizer, é que eu gosto genuinamente do palavrão e isso o leitor, o verdadeiro, já deverá ter entendido. Gosto do palavrão sintomático, sintagmático, do palavrão-música, do palavrão-foco de reflexão literária, filosófica, geográfica. Não pense, caro leitor, que digo palavrões o dia todo. Não os digo e não me esforço para não os dizer. Pense, se quiser, que os penso. E penso. Também penso que o verdadeiro desafio literário está em procurar a alternativa ao palavrão, e não no palavrão em si. Nem sempre, com a alternativa, se pode concretizar o literário.

Às vezes, o literário é o real, porque o real soa demasiado literário para ser esquecido - é, de resto, o que costumamos fazer com ele. O que é que aquela personagem diria naquela situação? Co'a breca, c'um caralho? Tanto me faz. Sobretudo porque o que eu escrevo acaba onde começa a literatura e começa onde acaba o real. O que eu escrevo não é literatura e não é real. Aqui, eu escrevo-me; identifico-me (passei a identificar-me) por uma questão imoral de responsabilidade civil. Quero responsabilizar-me pelos palavrões que digo, sociabilizar-me por capricho e não por osmose. Na maior parte das vezes, isto de me escrever é uma seca para quem lê (e também para mim). Mas há quem leia. Isto não é um jornal, não é um livro; não é nada. Seria alguma coisa se eu, aqui, manifestasse opiniões. Tudo o que digo aqui que se pareça com uma opinião não é mais do que uma provocação que, na maioria das vezes, não funciona.

De acordo com as estatísticas, apenas 5% dos meus leitores concorda com alguma coisa que eu digo ou que alguma vez tenha dito. Isso corresponde ao dedo grande do pé do meu pai. Atravesso a passadeira só quando está verde e até já pago impostos. Nunca saio sem pagar a conta e levanto-me para a grávida se sentar no comboio, mesmo se, ao meu lado, estiver um marmanjo de 14 anos. Sei vagamente o que foi o 25/4. Não preciso de palavrões para ser livre. Não sou livre e já me conformei com isso. E não conheço ninguém tão livre que, de vez em quando, não se foda por isso.

(Muito obrigada, adoro quando puxam por mim.)

O Rufino foi das melhores coisas que aconteceram à blogosfera nos últimos 30 anos.

«Would you like my hips to hipsnotize you?»

O homem que matou Liberty Valance é,

em português do Brasil, O homem que matou o facínora. Os títulos com a palavra facínora ganham sempre alguma coisa em relação ao original.

Um vez, ouvi Joaquim de Almeida dizer na televisão que «o arrependimento é uma perda de tempo». Adoro a expressão, mas Joaquim de Almeida não me parece uma referência credível. É por isso que, sempre que digo que «o arrependimento é uma perda de tempo», estou a citar John Wayne.

Chico Buarque - epifania

A Ana de Amsterdam é o JP Simões.

Os senhores que estão ali a falar no National Geographic Channel preferem a liofilização à taxidermia convencional. Concordo em absoluto.

O que fiz com isto (a metalinguagem não é bem vinda) era o que me apetecia ter feito com a vida. Desaparecer uns tempos deixando só algumas penas a nenhumas tragédias. No Público.pt, um anónimo diz isto assim a propósito da morte de Maria Gabriela Llansol: «Eu gostava muito da escritora, e li muitos dos seus livros. Acho que foi uma grande perda para o nosso país. Acho... Um grande abraço a Maria do seu colega john. Fica bem.» Fica bem. Fica bem? Se eu fosse MGL ressuscitava, só para chatear o meu colega john. Quem lhe diz, sobretudo, que na morte se fica?

Autobiografia

Passo a vida a cumprir desordens superiores.

«libido scribendi»

Maria Gabriela Llansol é semiótica pura. Para mim, só com água, gelo e uma rodela de limão.

Música para os meus ouvidos

«Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen.»

Mudemos de assunto, então.

Não faça perguntas,

caro leitor. Faça de conta.

Cúmulo do palimpsesto

Escrever os epitáfios a lápis.

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terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Epitáfio

Ich habe einen guten Schiss gehabt.

Requiem com pretas

Enfim ou de como wireless não é exactamente o mesmo que ubiquidade

Amáveis leitores,

O terapia metatísica encomendou a própria morte. Confiou-me a segunda parte do dinheiro para pagar ao seu assassino e deixou uma carta de despedida - toda em branco. O meu projecto falhou. Eu queria pôr em prática, de maneira desenvolta e arejada, um blogue saudável. Queria, em primeiro e último caso, ser lida. Fui lida, como nunca tinha sido. Houve quem gostasse de coisas que escrevi e houve muito quem exagerasse no gosto que me dedicava. Houve quem me lincasse e, presumo, se lincou foi porque gostou. A todas essas pessoas - que valeriam só por não serem máquinas -, só posso dizer uma coisa: discordo. É um direito do qual não abdico e que toda a gente pode exercer, tendo ou não um blogue.

Aprendi, nestes últimos meses que não contei, muitas coisas com o terapia. Aprendi a disciplina da escrita quase diária, por menos relevante que ela seja; com isto, aprendi a negligenciar outras disciplinas mais salutares para a manutenção do eixo gravitacional do nosso planeta e para a minha própria existência microscópica, tão limitada quanto as palavras de que disponho. Aprendi que as minhas opiniões são desprezíveis, não por serem minhas, mas por serem opiniões. Aprendi que há por aqui muita gente meio anónima que escreve muitíssimo bem e que, mesmo não escrevendo bem, pensa lindamente e isso já é uma vitória para os países que mais rapidamente sofrerão os efeitos da subida do nível médio das águas do mar.

Aprendi que gosto de jovens, aprendi que sou jovem porque, como todos os jovens, tenho características lamentáveis às quais só escaparei quando for mais velha - ou talvez nem isso. Com isto, aprendi também que posso usar roupa amarela e gostei de saber que não sou a única pessoa com menos de 30 anos a ouvir e a gostar de Fausto Bordalo Dias. Aprendi que, na música e na vida, aprecio sobretudo a dissonância.

Aprendi que Deus não deixa de ser Deus se lhe chamar O Grande Sacana, se o insultar e se lhe fizer perguntas inconvenientes. Não é porque Deus não exista, mas Deus é perfeito e, por isso, fala na melhor linguagem que há: o silêncio e o mundo. Aprendi, ainda antes deste blogue, que Wittgenstein radiografou o divino e só falhou em não ter guardado a radiografia para si e elaborado o diagnóstico mudo e esquecido no sofá do seu escritório. Alguém abriu a porta da sala de raios-x e W., cheio de esperança, saiu para espalhar a palavra e angustiar todos aqueles que, gostando de respostas, estão conscientes da insuficiência, às vezes cardíaca, de todas elas.

Cresci e o terapia suicida não cresceu comigo. Deseja, por isso, ser morto em silêncio. Porque fazer é falar e, se ele estiver quietinho no seu canto à espera da segada, não perturba a metafísica da terapia.

A contou-me hoje, ao almoço, que sugeriu ao próprio pai (patife como poucos são) que se atirasse para debaixo de um comboio, como já antes fizera o seu avô. A não se vai matar porque já desperdiçou todas as oportunidades que teve para o fazer. Se conseguisse, finalmente, suicidar-se, o caso seria ridículo e era muito provável que, no meio do sangue e da terra - as pessoas hoje em dia já não sabem matar-se de forma asseada -, se perdesse parte essencial da minha existência, que é a amizade que tenho por A e que A, sinto bem, tem por mim. Há pessoas que não se podem matar porque, simplesmente, há sempre mais alguém que morre com elas. Não sei para qual das duas partes pende mais o peso que, na balança, representa a injustiça.

Também aprendi que usar tísica em vez de física não é eficaz. Não me agrada que o terapia morra, ou seja, que se mate sem que alguns daqueles que o lincaram não tenham tido tempo ou atenção suficiente para trocar os éfes pelos tês. Paciência, eu também queria ser contralto e não me fizeram o gosto. Fizeram-me a folha.

Dirão, com certeza, que não há motivo nem entusiasmo para o meu blogue me ter ensinado tanto. E não há. Mas este foi o blogue que tive pelo qual mais me afeiçoei. Porque tem música e, etéreo, cheira a éter. Porque é branco e dá muito menos trabalho usar um blogue branco do que roupa branca, que precisa de cuidados e lavagens frequentes. O terapia é o asseio itself, em si, aí, um peido alvo que nunca me preocupou o suficiente para me fazer deixar de viver. É isso que aprecio num blogue e é isso que me faz desconfiar todos os dias da autenticidade semântica da vida: um blogue não é obrigação nem imperativo moral. A vida, às vezes, quer sê-lo.

PS: Não apago. Porque Wittgenstein's Vienna é um título demasiado bom para ser deixado à disposição de qualquer um (apesar de se basear miserável e vergonhosamente num excelente livro de título homónimo). Porque não me esqueço do desgosto que tive ao ver que o endereço Ceci n'est pas un blog não estava em branco e não quero deixar de proporcionar a outros um desgosto parecido com aquele que, na altura, me assolou. Porque talvez me apeteça, um destes dias, ter um blogue onde possa ilustrar a palavra justiça com a fotografia de um jacaré. Ou, talvez, com a gravura de uma cadeira.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Divórcio e polímeros: uma abordagem litúrgica na proximidade iminente da missa do galo

O Público dirige-me hoje as seguintes palavras: «Quer ser amigo do ambiente? Não se divorcie». Pois. «Quando o amor acaba e vai cada um para o seu lado, o planeta também sofre.» Os divórcios, com cada um para seu lado, aumentam os consumos de água e energia eléctrica e, dizem os especialistas, de materiais. Sim, quando uma pessoa se divorcia já pode comer bolachas e chocolates à vontade sem que o outro lhe diga que está gorda e, com isso, gasta mais embalagens. E a manta que podia aquecer dois corpos é comprada para que se tape só um e, de vez em quando, mais outro que nem chega a aquecer o lugar - sobretudo se o divorciado for egoísta e desencantado, ou também se tiver mau dormir. Se a manta for de poliéster, não há problema: as garrafas plásticas que separarmos ao longo de um ano resolvem. Se for de lã, já não é a mesma coisa: toda a gente sabe que os carneiros e as ovelhas são recursos esgotáveis, sobretudo com o surgimento, no seio das suas comunidades, de movimentos de orgulho liderados por concorrentes directos da cerveja Tagus. A jornalista do Público que, creio, pretende ser minha amiga, remata com uma belíssima observação: «Hoje tem estado fresquinho.» Ai, desculpem, não era isto. O que quis dizer foi: «A boa notícia é que, quando aqueles que estão separados voltam a apaixonar-se, incluindo assim novas pessoas no ninho, o consumo extra de recursos volta a cair.» Tem alguma piada esta boa notícia. Antes, porque são raríssimos os casos em que as pessoas divorciadas voltam a apaixonar-se; depois, porque alguns dos danos que aqueles divórcios causaram ao ambiente são irreversíveis. Mas o que é mesmo importante e, isso sim, uma boa notícia, é que costumamos ter a lucidez necessária para perceber que nenhum ambiente merece um sacrifício tão grande como travar um divórcio que, perdoem-me a leviandade, apetece.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

De certeza absoluta

que o Priberam é escrito por materialistas históricos ou, sejamos rigorosos, por pessoas de esquerda.

«burocracia

do Fr.
bureaucratie

s. f.

modo de administração em que os assuntos são resolvidos por um conjunto de funcionários sujeitos a uma hierarquia e regulamento rígidos, desempenhando tarefas administrativas e organizativas caracterizadas por extrema racionalização e impessoalidade, e também pela tendência rotineira e pela centralização do poder decisivo.

classe dos funcionários públicos, especialmente os funcionários do Estado.»


*Negritos meus, Deus me perdoe.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Orgulho

Sou, a partir de hoje, uma blogger Linux (pelo menos fora de casa).

«I know not what tomorrow will bring», but at least I'm sure I didn't order anything.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Jean-Paul Sartre tem sido um dos meus heróis.

Alguém me pode explicar

desde quando é que o aniversário de José Saramago se considera um acto oficial onde devem estar presentes representantes do Estado português?

domingo, 2 de dezembro de 2007

Consideração tosca da qual cedo me arrependerei

Como sou uma pessoa - sim, uma pessoa - ligeirissimamente aborrecida e desinteressante - sim, ligeirissimamente - só posso falar de coisas sobre as quais já falei. Hoje, falo de limites. De como, no Universo, tudo me parece limitado. A Internet, a ciência, a literatura. Saber que não posso conhecer tudo ou aproximar-me sequer de um conhecimento mínimo sobre determinados assuntos deixa-me exasperada, impaciente, desolada, numa apatia marasmática irreversível. Se o máximo que posso saber sobre física quântica se limita a uma definição para leigos generosamente elaborada por um especialista, prefiro não me chegar a ela, como se tivesse sarna, como se me pudesse contaminar. Pertenço a uma época em que o conhecimento é um passatempo generalizado, sem vocação finalista transparente. Terá sido sempre assim? Talvez, talvez o mal não seja de época. Mas quem, nesta época, se vê náufrago no conhecimento, sabe que a sobrevivência exige alguma capacidade de decisão. Não sei para que se conhece, mas pressinto que, muitas vezes, se conheça para conhecer. Angustia-me o conhecimento sem utilidade prática e prevista e angustia-me mais ainda a ideia utopista de que o conhecimento pode não ter sido sempre fruto do acaso. O conhecimento que eu vejo por aí, full time e todos os dias, o conhecimento de que também me sirvo, já não é bem conhecimento. É fausto e exibicionismo, fazer apreciar a nossa inteligência como se a saúde se fizesse de uma qualquer compulsão documental e, se possível, documentada. As bibliografias são só ausências. O ar que respiramos e o sangue que em nós circula também são fontes, das mais puras e citáveis.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um destes dias, este blogue vai mudar. Mas descansem, pior é impossível.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A mania da perseguição

Sou um homem triste e bêbedo. Sento-me outra vez ao balcão e peço o do costume. Tenho perseguido uma mulher que, está visto, não me quer. Toda a gente parece saber que ela não me quer e eu também sei que ela não me quer, mas disfarço. Chove e enfio-me no sobretudo. Chove e dou passos largos nas avenidas. Chove e vou beber. Chove e ela não me quer. Chove e disfarço. O do costume. Fecho os olhos e vejo que a mulher que eu quero e persigo se senta ao meu lado. Olha-me meiga, maternal. Não me quer. Abro olhos e ao meu lado está um velho como eu. Ele sabe. Sabe e diz-me:

- Parece que a bebida também tem um problema consigo.

ix

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cinema e franguinho assado

Hoje baldei-me a uma aula para ir ao cinema. Vi Eraserhead, o primeiro filme de David Lynch (dizem). Em relação ao filme, só tenho duas certezas: a primeira é a de não ter gostado; a segunda é a de que nunca me esquecerei do filme - uma pessoa nunca esquece os seus momentos de agonia. Ah, e também tenho a certeza de não ter percebido, literalmente, a ponta de um corno. E a certeza de que é ridículo falar de filmes sem sentido só porque isso nos faz parecer inteligentes. Na minha ideia, Lynch teve uma série de sonhos maus e decidiu fazer um filme para repositório desses sonhos. Não disse que os sonhos de Lynch são assustadores, disse que são maus. Uma mulher que pare embriões mutantes que depois se atiram contra a parede não me parece um sonho assustador para ninguém, a não ser para o próprio embrião. O absurdo tem limites rígidos. O primeiro desses limites é axiomático: só é verdadeiramente absurdo o que é absurdo para toda a gente. Se, numa cena que o autor quis que fosse absurda, alguém encontra um sentido, o absurdo perde aquilo que o caracterizava como absurdo. Nesse aspecto, as explicações de Lynch são honestas: parece mesmo não entender nada daquilo que faz e di-lo com grande naturalidade, enquanto outras pessoas se esforçam para mergulhar nos seus filmes de fato térmico e garrafa de oxigénio, em grande profundidade. Estas despensas de sonhos e demónios até podem funcionar bem. Fellini arruma muito bem as conservas; já a logística de Lynch é, como direi?, fraquinha. Sonoplastia magnífica? Não creio. Chaplin não precisava da turbina contínua para se referir sonoramente à era industrial. Magnífico, só o easy listening de Jacques Tati.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Breve maltratado das coisas que não existem [40]

Não percebo como a risota pode ser pegada quando, na verdade, ela só surge se a largarmos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Jazz com Pretas [13]

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A incompreensibilidade é uma condenação a que nos propomos individualmente, sem triagem nem sorteio. Uma espécie de «Cogito ergo sum» levado ao extremo, um transbordar impossível do self, um olharmo-nos no lago e apaixonarmo-nos por nós mesmos. É desconfortável não sermos compreendidos e, nesse desconforto, há um outro conforto, secreto e indizível, de que nos devemos envergonhar. Como um bebé, sabemos embalar-nos no nosso choro. Como um poeta, fazemos gala da nossa tristeza. Como se a culpa de a comunicação não ser eficaz fosse do outro e não nossa e da linguagem que faz que se põe ao nosso serviço. Não acredito na ineficácia da comunicação, mesmo que a comunicação diga respeito a vísceras ou sentimentos. Descrever paixões, doenças, sentimentos horríveis e contraditórios é sempre possível. Se não fosse assim, não haveria arte, literatura, música, porque todas vivem da possibilidade e até da probabilidade da nossa identificação com elas. Sempre que alguém não me compreende sinto-me, num primeiro momento, injustiçada. Depois, com duas ou três pedras de gelo em cima, no frio da ressaca e do abandono, penso melhor e arrependo-me. É uma injustiça sentir-me injustiçada por não me terem compreendido. Na maior parte das vezes, a verdade é que não me esforcei o suficiente. Se me tivesse esforçado atleticamente - sim, isto não é fácil, mas todas as outras coisas também não são fáceis - o resultado teria sido harmonioso e o esforço, esse, demasiado leve. Apreciamos o silêncio dos outros e desprezamos a nossa capacidade de fazer silêncio para os outros. Enquanto a luta for connosco, tudo está bem; porém, infelizmente, nem tudo se recomenda.

«O que é que as palavras podem dizer?», «O que é que nós podemos dizer com as palavras?» são questões mais ou menos filosóficas para as quais ainda não se arranjou uma resposta que não fosse estritamente metafísica. Eu posso responder a essa pergunta de modo prático, doméstico, peremptório e arrogante: as palavras dizem tudo e, com elas, nós podemos dizer tudo. Corremos, em todo o caso, o gravíssimo risco de, em nenhum caso, sermos entendidos.

Hoje, pela primeira vez, o meu blogue foi tido em conta pela imprensa. Numa notícia intitulada «Cibercrime sem punição».

Breve maltratado das coisas que não existem [39]

Quando alguém me diz que «não lhe chego aos calcanhares» eu intuo sempre que, em vez de calcanhares, o outro me está a querer dizer cotovelos, isto é, que sou tão baixa que não lhe chego aos cotovelos. E daí, talvez não seja bem assim. Não lhe chego aos calcanhares porque, por muito que rasteje... enfim, vocês sabem.

Não sei estar um dia sem ser sentimental. É de mais, a chuva que Ele nos manda.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Este blogue é uma seca; eu, uma enorme camela

É a terceira corrente em que me envolvem em menos de um mês. Não sei se não é obsceno reagir. Não é: das três, esta é a mais divertida. A que é que eu brincava antes de haver Playstation? Antes de qualquer outra coisa, tenho de agradecer à minha mãe por nunca me ter oferecido um Game Boy - e se eu lho pedi! Não consigo falar de cinco brincadeiras sem me lembrar de todas as outras. Sei que, em vez de brincar com o Game Boy, li todos os livros d' Os Cinco, às vezes repetidamente, até me apetecer qualquer coisa mais sacramental do que os lanches da tia Clara. É verdade que as minhas primas vieram, num Verão, da Alemanha e trouxeram a Super Nintendo com dois únicos jogos: The Legend of Zelda e o Super Mario World. Esqueceram-se da consola lá em casa. Mas Zelda com diálogos em alemão e Super Mário com níveis indescortináveis foram coisas que me cansaram cedo.

Sou filha de pais separados e cresci na periferia de Lisboa. Tive amigos de todos os dias e amigos de fim-de-semana (alguns, amigos todos os dias). Na primária, saltava ao elástico com as outras meninas, que gozavam muito comigo por eu ter cabelo curto e jeito nenhum para aquilo. Às vezes, jogava ao mamã dá licença? ou ao lencinho. No recreio, a minha brincadeira favorita era o futebol. Rasgava calças quase todas as semanas.

Deixaram-me sempre brincar na rua. Atrás da casa da minha avó estavam a preparar o terreno para a construção de um parque gigante e eu fui para lá brincar sozinha. Quando dei por mim tinha o lábio inferior a jorrar sangue em quantidades ridiculamente abundantes. Tinha ido contra a pá de uma retroescavadora. Até hoje, não sei como fui contra a pá de uma retroescavadora, mas juro-vos que aconteceu, podem perguntar à minha avó.

Lembro-me de, uma vez, ter aproveitado a superfície do poço fechado do quintal para construir uma grande mansão para os Pinipons. O meu bisavô Zé construiu-me um baloiço e também uma casa de madeira para os Pinipons. Não brincava com Playmobils porque eles não cabiam na casa, mas cheguei a ter o navio pirata.

Depois, vieram os amigos: a Sarah e o seu irmão, o Fausto (tive um fraquinho por ele). Com a Sarah costumava cantar por cima das canções que tocavam no leitor de CDs. Jogávamos Mega Drive, Master System e, depois, Sega Saturn. Às vezes, fazíamos piqueniques e, um dia, chegámos a ir para o parque às 8h da manhã, de radiografia na mão, para ver um eclipse qualquer. Nunca estudávamos. Deixámos de nos falar no secundário. Nunca percebi porquê e talvez isto não tenha explicação.

Aos fins-de-semana tive a Inês, já vos falei da Inês. Brincávamos na rua, até às tantas, de bola e de bicicleta, de patins. Um dia, a Inês tinha uma muleta qualquer em casa, não sei bem porquê. Levou a muleta para minha casa e aproveitámos um saco de meias brancas e velhas de desporto que por lá havia. A Inês calçou cinquenta e quatro pares de meias no mesmo pé e quis passear-se comigo na rua, a fazer-se de engessada - não sou capaz de me lembrar disso sem morrer um bocadinho a rir.

Quando se comprou, já na casa de Cascais (para onde eu também só ia aos fins-de-semana e nas férias) um grande televisor, daqueles de setenta e tal polegadas, aproveitámos a esferovite para fazer um centro de operações do FBI, com ecrãs e botões inacreditáveis. Um dia chateámo-nos durante umas horas porque a Inês estava a tentar explicar-me o que era a inteligência. Desculpa, Inês; só agora, muitos anos mais tarde, percebo o que querias dizer. Que a inteligência em si não tem valor nenhum, que sem luz e carácter a testa não nos serve para nada. Hoje, graças a ti, sinto-me um bocadinho mais inteligente - não pode ser muito, senão morro de inchaço.

No 7º ano conheci o Filipe e o André e andávamos mais preocupados com assuntos de outras dimensões. Comunismo, ecologia, gozar com os professores. Depois ficou só o Filipe, a pessoa, provavelmente, com quem eu mais ri na minha vida. Obrigada, Filipe, por me teres ensinado que as palavras também são brincadeiras. Brinquei muito e acho, mesmo assim, que não brinquei grande coisa. Hoje, tenho irmãos mais novos, gosto de vê-los brincar e de brincar com eles. Não sei se eles brincam bem ou se brincam o suficiente, mas acho que isso não tem importância nenhuma. Porquê? Porque Freud é um imbecil.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

MP tem prova de que Fátima mentiu

Isto é o título de uma notícia do Correio da Manhã. MP está para Ministério Público como Fátima está para Felgueiras. No terapia, o lead reza assim:

O Magnífico Pulha descobriu, através de uma prova deixada nos seus aposentos por um anónimo, que a Nossa Senhora de Fátima mentiu aos três pastorinhos para impressionar a Azinheira Grande, a 13 de Maio de 1917. As causas da burla ainda não são conhecidas e as informações sobre a prova ainda se encontram em Segredo de Postiça, mas o MP já indicou que, se se tratar de crime passional, as penas serão elevadas e exigirão um pedido de desculpas formal a todas as vítimas soterradas pelo Muro de Berlim na tragédia de 1989.

De certeza que alguém já escreveu sobre o vício ridículo de se dizer que determinada coisa se descontinuou quando, na verdade, acabaram com ela. Packard Bell MX67-P-064, Nestum de figos, leite com chocolate Ucal em garrafas de plástico com as Tartarugas Ninja no rótulo, cassetes Betacord (tão maneirinhas...). Se a sua vida é uma tristeza e não tem com quem desabafar, descasque e pique uma cebola e faça um refogado até que, como diz a minha avó, ela fique translúcida.

Please repeat after me, o último post da noite em dialecto tibetano

A ti, abençoado galão de máquina que me tiraste o sono.

Breve maltratado das coisas que não existem [38]

Nunca se diz que determinado assunto está na ordem da noite, quando é de noite que acontecem as coisas mais interessantes e desordenadas.

DL = David Lynch/Dalai Lama

Fui à masterclass de David Lynch no Centro de Congressos do Estoril. Escangalhei 4 folhas de Moleskine com a brincadeira e ainda estive para fazer jus ao meu percurso académico (ahahahahah) e, com isso, alinhavar uma peça jornalística a preceito. Afinal, mudei de ideias: prefiro dizer mal. David Lynch chegou de troféu na mão e cigarro na boca e praticamente toda a gente se levantou, batendo palmas. Achei estranho que se batessem palmas antes de ele dizer alguma coisa, até porque a conferência era sobre meditação transcendental e não, propriamente, sobre cinema. Mas enfim, respeitei e permaneci sentada.

Quando Lynch abriu a boca percebi-lhe logo um sotaque carregado a resvalar para o sulismo e um tom molengão à George W. Bush. Pensei que a tarde estava salva quando o homem respondeu à letra a uma pergunta que estava mesmo a pedi-las: «What is your feeling between [between?] the sleeping dreams and the waking dreams?», «Well, in sleeping dreams you're sleeping and in others you're awake.» David Lynch e uma sitcom têm, pareceu-me, muito em comum.

Fizeram-se perguntas interessantes e, nalgumas, Lynch não desiludiu. Uma delas, que me deliciou, dizia respeito à importância da imagem digital no seu cinema. Lynch não voltará a filmar em película, não quer esperar para ver resultados, a câmara está sempre pronta para reagir a coisas bonitas que acontecem e isso conserva a magia da vida no cinema. Na repetição dos takes, acredito (como Lynch), muitas coisas se podem perder.

«All things are instruments», outra coisa bonita que disse. Todas as coisas são instrumentos e o homem é o decisor supremo. A onda zen de Lynch permitir-lhe-á, talvez, sentir-se mais próximo da extravagância nietzschiana do super-homem. «You gotta be true to the idea and hear your inner voice», pois.

Diz um rapaz que, a dada altura, lutava (Lynch demorou meia hora a perceber que a palavra era "struggling") para entender INLAND EMPIRE (seria este)? Lynch achou bonito. «David, estás a fazer filmes para o inconsciente?» Curioso que nunca, em momento algum, se falou naquela sala para «mister Lynch». Era o mínimo que se podia fazer para uma pessoa que entra a fumar e de troféu na mão. Não, o David não faz filmes para o inconsciente. «Na experiência de felicidade infinita [que nos vem através da meditação transcendental] o inconsciente torna-se consciente, a intuição chega e é muito importante para o artista. [Nesta altura o artista gesticula com os dedos, como se estivesse a largar confettis] For the artist, intuition is the number one tool, it's a kind of knowing when something isn't correct and making it correct.» A intuição é a principal ferramenta do artista. Bonito, isto. Pena que haja artistas sem intuição nenhuma e que, coitados, não experimentam a felicidade infinita porque não sabem ou não lhes apetece a meditação transcendental.

A raiva, a depressão e a melancolia no artista são, para Lynch, «a way to get chicks». A educação é um infernozinho para onde se vai depois do pequeno-almoço. A escola, «especialmente na América» (aqui verificámos a vastíssima cultura do David em relação à educação europeia em geral e portuguesa em particular), serve para se aprender uns factos que depois se usam no trabalho, «another kind of stress».

«First, seek the kingdom of heaven that lies within. (...) There's huge, unbelievable potential for the human being», oh não, onde é que eu me vim meter?! O momento Igreja Universal do Reino de Deus versão dalailamizada repetiu-se várias vezes naquela hora. Um ou outro parecer sobre arte salvou os momentos restantes. E também ajudou o facto de eu não estar a levar a coisa a sério. E o facto de David Lynch ser um gajo simpático que pantomima bastante.

Analisado noutra perspectiva, o cume da tarde podia ter sido uma vulcanização de senso comum: «Não é preciso sofrer para mostrar o sofrimento.» Finalmente, David, percebo que não és só pregador, afinal também és artista e às vezes muito bom. Diz a minha amiga S. que Mulholland Drive a marcou para sempre por ter das melhores cenas de cama de todos os tempos. Aprecio os artistas que fazem boas cenas de cama, sobretudo se essas cenas envolverem duas pessoas de sexos distintos. Não é o caso e não é preconceito. É uma questão de tesão e, infelizmente, cada um sabe do seu.

Desilude-me um pouco a visão de Lynch sobre a Internet. Serei demasiado democrata? Acredita que a pirataria desmotiva os artistas que não podem continuar a trabalhar se não tiverem uma compensação monetária para os seus próximos projectos. Para ele, segundo o modelo de liberdade que impera na pirataria, as coisas estão a ser dadas e não estão a ser valorizadas.

Engano redondo. Há muito dinheiro a circular no mundo, em todos os campos, incluindo o do entretenimento e, se quisermos, da arte. Esse dinheiro não vai deixar de circular. Surgirão, como tem acontecido até agora, novos modelos de negócios. A loja i-Tunes é um sucesso e as grandes companhias discográficas estão deixar de proteger os seus ficheiros, porque vendem melhor assim. É claro, David, que ver o 2001 Odisseia no Espaço num ecrã de telemóvel não é o mesmo que vê-lo numa sala de cinema (este foi, mais ou menos, o exemplo dado por Lynch). Mas, ó David, não é preferível que qualquer ser humano no Mundo tenha visto Kubrick nas miseráveis polegadas de um Nokia? Não é preferível que tenha ouvido Richard Strauss e Johann Strauss num Kubrick através de uns auriculares da treta? Achas que o verdadeiro artista prefere, realmente, que o seu potencial público vá antes à feira do Monte Abraão comprar uma gravação do Armageddon com um tema sofrível - mas que fica no ouvido - dos Aerosmith? Enfim.

«Peace, dynamic peace, creative peace.» Mais um momento propagandista salvo por uma pergunta desnecessária e um sentido de humor acertado. «Would you chose a city like Lisbon to shoot a movie?», «If the movie is about coming to an airport and sitting in a van to come to a masterclass, yes!»

Mais meditação transcendental. «You could say this Lynch guy is nuts but you can try it and see the results.» Escolhi. «This Lynch guy is nuts.»

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um site branco para um Público a cores. Definitivamente, esta remodelação fez-se a pensar em quem, como eu, não se dá bem com o papel.

(e os vídeos, senhores, os vídeos!)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Terceira Lei da Termodinâmica

Um zero, por muito que esteja à esquerda, nunca corre o risco de se tornar absoluto.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Física para mulheres

É a terceira vez, no espaço de uma semana, que escrevo a expressão «Segunda Lei da Termodinâmica». O mesmo leitor que se preocupou com a expressão «ou de como» alerta-me agora para esta evidência que, acredita, desvirtua não tanto o meu blogue, mas sobretudo a Primeira Lei da Termodinâmica. Acho justa a preocupação e acrescento, para me redimir - e, espero, para salvar toda a humanidade de um castigo merecido - uma pequenina reflexão sobre a Primeira Lei a este modesto tasco, como lhe têm chamado alguns bloggers que, vê-se logo, bebem.

Se bem me lembro, a Primeira Lei da Termodinâmica funda-se na seguinte premissa: em sistemas de todos os níveis (do intestino de uma formiga à linfa do Universo), existe energia e essa energia conserva-se nas interacções entre sistemas ou entre um sistema e as suas imediações que, voilà, também são sistemas. Exemplo canónico, falacioso do ponto de vista científico, mas ainda assim aceitável: um moinho de água. A água é a energia do moinho, o moinho mói cereais que dão farinha, a farinha transforma-se em pão, eu como o pão e alimento-me, os meus filhos hão-de alimentar-se de mim e, quando morrer, se não se lembrarem de me cremar, eu hei-de alimentar os abutres ou os vermes.

É mais fácil concordar com a Primeira Lei da Termodinâmica do que com a Segunda. Discutimos com o nosso cônjuge - eu tinha de arranjar uma boa razão para usar esta palavra num post e aqui está ela, a Primeira Lei da Termodinâmica - e ele exaspera-nos. Num primeiro momento, a energia que perdemos a fazer-lhe ver que não fomos para a cama com o pasteleiro transfere-se para ele que, eivado de fúria, nos dá com uma cadeira nos cornos.

Quando o nosso cônjuge - segunda vez, vamos lá ver se isto não se torna um hábito - percebe a asneira que fez, isto é, que lixou o tapete de Arraiolos que a avó fez propositadamente para a sala de jantar, perde toda a energia e agarra-se a nós aos beijos e abraços, lambe-nos o sangue da bochecha esquerda e toca a lavar-nos as madeixas com Betadine - isto é a família portuguesa depois de uma sessão de violência doméstica em horário nobre.

A energia que se dissipou do alegre ambiente familiar que vivíamos transfere-se, como não podia deixar de ser, para o vizinho de baixo. O vizinho de baixo, cornudo e conformado, transferiu a energia que ganhou ao acordar do seu sono de meia hora (enquanto o jantar está na Bimby) para o pau da vassoura que fez bater no tecto para que ouvíssemos a pancada do chão. O tecto tem uma racha, a racha abre-se mais e, em resultado disso, cai no chão um grande bocado de gesso.

O vizinho fica fodido e decide telefonar para a polícia a dizer que a gritaria lá em cima foi tanta que lhe caiu no chão um bocado de tecto. O dia correu mal ao polícia de serviço que, ao ver o espectáculo de sangue em cena no tapete, decide bater com a cabeça do nosso cônjuge - mau Maria! - na parede por vinte e sete vezes enquanto exclama «Eu odeio homens que batem em mulheres!». Foi na parede esquerda do hall de entrada que, por acaso, dá para o vizinho do lado.

O polícia, sem querer, mata o nosso cônjuge. Ocorre ao vizinho do lado tirar os auscultadores por uns segundos, não vá a mãe ter batido à porta para trazer o tupperware da sopa. Ouve o vizinho gritar, que é a coisa mais parecida com a realidade que ele alguma vez conheceu depois do jogo GTA Vice City para Playstation. Chama a polícia. Entretanto, o senhor agente de serviço já deu um tiro nos próprios miolos porque a sua mãe também levava porrada e as crianças apareceram no hall a chorar e viram o pai desfigurado.

Nós sobrevivemos. Passa uma semana da missa de sétimo dia e o nosso cabelo ainda cheira a Betadine. Os transeuntes fogem de nós e, no Universo, toda a energia se conserva.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Estar à nora é estar à mercê da sua própria cobardia. Os corajosos, esses, estão sempre no fundo do poço.

Suicídio narcisista - o que escapou a Durkheim

Um queridíssimo, amorosíssimo, delicioso leitor (escusam de perguntar por ele, que é anónimo) alerta-me para a ocorrência esparsa da expressão «ou de como» no discurso generalizado que, acredita, me desvirtua, pela frequência em que a exibo, a singularidade do blogue - olhando bem o itálico, digam lá daí se ainda não há muita gente com piada. Há dias, um outro, sem aspectos de ternura assinaláveis, dizia-me que a vulgaridade é coisa na qual caio, até, vejamos bem, com denodada frequência. É nestas alturas que eu sinto em mim a verdade da ciência. Diz a Segunda Lei da Termodinâmica que todo o Universo converge para a minha entropia.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

To the Moon

Dois alienados com muita coisa para fazer e pouca vontade de mexer uma palha constituem-se, alegremente, sócios fundadores e membros honorários de uma coisa que, dependendo do grau de embriaguez em que se mantiverem e da qualidade da associação humana que surgir, tem tudo para ser um grande projecto.

Nuno, cúmplice, amigo blogger e inspirador exclusivo deste projecto - sem querer, não duvido - aproveito, agora que o mal está feito, para te alertar para o facto de, a este clube, se poder associar qualquer pessoa que, mesmo que não goste do Mestre, se inscreva gnosiologicamente neste maniqueísmo de algibeirinha. As potencialidades são inúmeras: eu não queria pertencer a um clube onde todos concordassem com todos e, muito sinceramente, também não me apetecia limitar-me a discutir se os anos da Capitol são melhores do que os da Reprise. Mas lá que quem não gosta de Sinatra não é filho de boa gente, isso é verdade. E daí, os coitados dos pais não têm culpa nenhuma. O e-mail funciona e aguarda interessados (e desinteressados) com aleivosa ansiedade.

Com entusiasmo e em nome da Pau de Cabinda Connection Produções,

Filigraana Alberta

And don't tell your papa!

As crianças são os únicos seres autorizados a utilizar o senso comum. Porque o fazem com propriedade e, na maior parte dos casos, para se integrarem com bons resultados e por breves momentos na vida adulta. São brilhantes na altura em que percebem que esse mundo no qual se querem integrar é abjecto e brincam como se fossem adultas e como se ser adulto fosse uma vantagem inalcançável.

Posso começar por gostar de uma pessoa pela forma como anda. Gosto das pessoas que vão a direito, que dão passos determinados e largos, mesmo se tiverem pernas curtas, de gente que não se desvia. Gosto dos passos dados sem o medo antecipado dos obstáculos ou de chegar aos sítios com o corpo antes de lá chegar com a cabeça. Várias pessoas que eu conheço e de quem gosto muito andam assim, para diante, chocam com outras pessoas, encaram-nas e pedem desculpa, fazem sem planear, entram de rajada e depois logo se vê. Ir-se sem se saber ao que se vai é como ter todas as ruas dentro de si. Parar a meio de um caminho que pode, ou não, ser familiar para dizer «onde é que eu estou?», «como vim aqui parar?», «como é que retomo a estrada?» dá, nos dias que correm (expressão horrível que só aumenta mais a vulgaridade da gramática), direito a medalha. Já não se anda sem ser num sentido técnico e teleológico, não se anda em sentido físico, de ganhar calos nos pés e no olhar em movimento, não se cartografa com os pés. Gosto de quem vai por ir e aceita o que os lugares e os caminhos lhe dão. Na rua, é fácil distinguir um turista de um acostumado. O turista - e, em certo sentido, o marginal - ergue os olhos para o céu e fá-lo porque não sabe o que vai encontrar. Qualquer pessoa - e, sobretudo, qualquer criança -se torna encantadora quando, se lhe falarem num pássaro morto, o procura no céu; isto é, quando, sem querer, admite que o céu, igual em todos os lugares, não é igual em todos os lugares.

Diz a esse Grande Sacana que Ele não tem o direito de dispor assim da tua vida.

Atrasei-me uma hora. Melhor: o meu comboio atrasou-me uma hora, quando eu tinha planeado tudo para só me atrasar quinze minutos. Cheguei à aula e o professor falava. A dada altura quis fazer uma pergunta a quem tinha chegado «no final da aula». Notem bem, a pergunta era para quem tinha chegado «no final» e não, generosamente, «mais tarde» ou, simplesmente, «atrasado». O professor tem toda a razão em dar às coisas os nomes que elas têm e merecem. Só que ele não sabe que hoje, quando o despertador tocou, eu não fiquei nem mais um segundo na cama. Portei-me bem; para a próxima não me porto.

Não é preciso muito esforço para provar a ineficácia do método e do planeamento por oposição à eficácia das forças físicas celestes e conjecturas metafísicas afins. Hoje, os comboios da linha de Sintra andam muito atrasados. Alguma coisa séria e imprevista aconteceu. Quando os funcionários da CP fazem greve nunca acontece nada de sério - por alguma razão que a Segunda Lei da Termodinâmica não clarifica, só nesses dias é que os meus atrasos têm justificação reconhecida.

A paixão de Fourier ou de como usar duas vezes o mesmo trocadilho com absoluta ineficácia

- Vai-te! Não há lugar para ti no meu falanstério.

E, temendo a foice, ela foi-se.

Todos os homens são comuns ou de como Dumas fotografado por Nadar parece mesmo um merceeiro

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sobreviver é uma grande homenagem que se faz aos mortos.

O plágio é um estado de espírito. P como preguiça, l como languidez, a como apatia, g como gula, i como inutilidade e o como orfandade. Os plagiários são órfãos que, para provar que não têm nada dos pais, só sabem ser como eles.

A angústia está toda em não ter influências, isto é, em tê-las e não saber nomeá-las. É só ligeiramente inquietante não saber quem nos puxa o reboque.

A solidão é haver sempre quem já tenha lido os mesmos livros que tu.

domingo, 11 de novembro de 2007

Mais uma correnteza - quer-me parecer que isto não combina comigo.

Não sei se é aceitável lincar duas vezes o mesmo blogue, mas como me estou marimbando para o que é aceitável, aceito o desafio. Cinco filmes, pois. Da minha vida, hoje? Está bem, aqueles dos quais hoje me lembro:

Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, por causa dos nossos fluidos naturais.
Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, porque gosto de casas e de homens de pijama em Technicolor.
Playtime, de Jacques Tati, porque há filosofia na arquitectura e graça na filosofia.
A Festa, de Blake Edwards, porque o Peter Sellers de indiano me faz morrer a rir.
O Sétimo Selo, de Bergman, porque sim.

A Estrada e O Trono de Sangue não estão porque The Shining, Manhattan e Salò também não estão e, se vamos falar de chorar, então façamo-lo Voando Sobre um Ninho de Cucos.

Cinco bloggers? Não posso, dá muito trabalho.

O que é bom para a tosse

Permita-me discordar. Anteontem, três putas velhas fumavam para cima de nós. Num restaurante chinês muito bom, cheio de crianças, daquelas que se escondem no W.C. e dão gargalhadas. Pedimos ao empregado que abrisse a janela - imagine-se, abrir a janela quando a janela não elimina as toxinas e mais blá blá blá, é estupidez em vez de delicadeza, só pode. São putas velhas porque assim que o empregado se foi embora fecharam a janela. Deviam estar com frio, coitadinhas. O empregado voltou, perguntou se tinha melhorado, dissemos que não, que a janela estava novamente fechada. Ele falou com as senhoras mais uma vez, voltou a abrir a janela. As senhoras putas continuavam a fumar, naquele gesto ordinário de quem gosta de fumar mas não quer o próprio fumo, então aponta a ponta do cigarro para trás, com a mão a levitar por cima do ombro. O meu chao-min tinha acabado de chegar e eu estava sem paciência. Levantei-me com a faca e o garfo na mão. Degolei a primeira velha, que não ofereceu resistência - deve ter sido do espanto. As outras duas ainda espernearam quando lhes furei o bochechame, mas depois devem ter admitido que as sardas ficavam bem com o seu tom de pele, e aceitaram o aspecto de regador que lhes propus. Faziam-se acompanhar de uma outra criatura que não fumava mas tinha, igualmente, ar de puta, por isso não resisti e, à boa maneira de Robin Hood, tive frieza de espírito para ir à minha mesa buscar a colher de servir e arrancar-lhe o coração. Sem saber o que fazer com os pauzinhos, que só um dos meus acompanhantes é capaz de usar, enfiei-os no olho direito de cada uma das duas marias sardentas, para que soubessem o que custa quando o fumo arde nos olhos.

Num mundo perfeito, de paixão e vísceras (de matar o Bill), seria isto que teria acontecido. Na verdade, o que aconteceu foi que as senhoras continuaram a fumar e a conversar alto sobre a forma como os fumadores são obrigados a respeitar os não fumadores e os não fumadores não respeitam os fumadores. Os cidadãos imperfeitos comeram tudo no carvão e, ao chegar a casa, lavaram os cabelos para não intoxicar a almofada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pau de Cabinda

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Telejornal em Estocolmo

Estou convencida de que a resposta para o sétimo selo está no sétimo sono. É pena que eu acorde sempre por volta do oitavo. Atrasada e sem tempo para tomar o pequeno-almoço.

Gastroenterologia

O movimento dos amantes é peristáltico. Alguns amores são úlceras. As borboletas que se sentem estão no estômago. E, digam o que disserem sobre o assunto, cagar é quase sempre um prazer.

Estou desempregada (uma pessoa que trabalha a recibos verdes, isto é, que nunca teve um emprego, poderá ficar desempregada?) há menos de um dia e já tenho trabalho. Aborrece-me não ter tido tempo para ficar contente. Pensando bem, nem sequer tive tempo para ficar deprimida.

«Estava escuro. Estava mesmo muito escuro. Mas no meio de tanta escuridão era possível ver os contornos do autocarro no fundo da ravina. Os cerca de 50 metros de declive conduziram a um único pensamento: "Será que alguém conseguiu sobreviver?"», Isaltina Padrão, aqui. Tenho lido coisas piores no DN Jovem.

uma quase-notícia no site do DN que foi escrita por pelo menos 5 pessoas. Não se consegue deixar de ler, o que só prova a universalidade das grandes tragédias e a eficácia do mau jornalismo.

O egoísmo inevitável ou de como já faltou mais para me tornar beata

Ando a estrear-me numa vocação contemplativa. O mundo à minha volta, apesar dos horrores que encerra ou, melhor dizendo, dos horrores que liberta, parece-me extraordinariamente bonito. Deus tira com duas mãos e dá só com uma, mas aquilo que dá - digo-o eu que não tenho sofrido por aí além e até tenho uma certa tendência para a felicidade consentida - vale por tudo o que tirou. É na fome que a comida nos sabe melhor e quem não foi atropelado hoje é, sem dúvida nem método (pois se até nas passadeiras se está em perigo), uma pessoa de sorte.

«muita gente a pintar a mesma paisagem»

Tenho reparado que no Correio da Manhã, de vez em quando, se entrevistam pessoas que mais ninguém se lembra de entrevistar. Pessoas que enchem entrevistas maravilhosas sem muito engenho, pessoas que falam, que se escrevem a falar, que vivem e viveram muito, que prometem continuar a viver. Pessoas daquelas entrevistáveis, que sabem muito da vida e têm poucas opiniões. Malangatana Valente. Porque os bons jornalistas são bons em qualquer tablóide ou jornal de parede e porque os bons entrevistados são bons em qualquer entrevista.

Relato de um magusto sem uma única castanha

Há um sítio em Lisboa, onde não cheira a castanhas assadas, que me parece Berlim nos anos 70. Perguntas-me se eu alguma vez estive em Berlim, se lá estive nos anos 70. Não estive, não vivi nos anos 70, mas tenho a certeza de que aquele lugar é como Berlim nos anos 70. Só que hoje, um dia bonito que anoiteceu cedo e, anoitecendo, se fez uma noite bonita mesmo sem cheirar a castanhas assadas, a Berlim dos anos 70 é, além de Berlim nos anos 70, bonita - o que, tratando-se de Berlim e, sobretudo, tratando-se de Berlim nos anos 70 é um acontecimento. Lanchei bem e vou voltar a estudar italiano.

domingo, 4 de novembro de 2007

senhor sustento

Hoje, o convidado de Ricardo Cardoso no Arestas de Vento (o mais duradoiro programa de rádio sobre cultura em Portugal) é o presidente da Junta de Freguesia da Marateca. Eu sabia que a minha vida tinha alguma razão de ser, só me faltava descobri-la.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A correnteza

«Na sua totalidade, os terrenos da Fundação Gulbenkian aconchegam os seus edifícios de betão, projectado num abraço verde que suaviza o seu impacto no espaço e nos seus visitantes como um santuário confortável, retirado do barulho e das distracções da cidade.»

O Jardim, livro mais próximo, coordenação geral de Aurora Carapinha, Fundação Calouste Gulbenkian, 2006, p.161, 5ª frase completa, passo a outros e não aos mesmos (1|2, ordem cronológica e não hierárquica), isto é, ao Azia, à pimpinela, àquele cavalheiro, ao Luís Miguel Oliveira e ao irmão lúcia.

*os itálicos inesperados são meus.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

no momento do amor

«Javier empenhou-se em chamar alguém que estivesse no Inferno, para nos tirar as dúvidas, mas o médium, sem vacilar um segundo, explicou-nos que era impossível: os de só podiam ser convocados nos três primeiros dias de mês ímpar e só se lhes ouvia a voz. Javier pediu então a alma que tinha criado a sua mãe, a ele e aos seus irmãos. Dona Gumercinda compareceu, mandou cumprimentos, disse que recordava Javier com muito carinho e que estava a fazer a sua trouxinha para sair do Purgatório e ir ao encontro do Senhor. Eu pedi ao escriturário que chamasse o meu irmão Juan, e, surpreendentemente (porque nunca tivera irmãos), veio e mandou-me dizer, pela benigna voz do médium, que não devia preocupar-me com ele pois estava com Deus e que rezava sempre por mim. Tranquilizado com esta notícia, desliguei-me da sessão e dediquei-me a escrever mentalmente o meu conto sobre o senador. Lembrei-me de um título enigmático: A Carta Incompleta. Decidi, enquanto Javier, incansável, exigia ao escriturário que convocasse algum anjo, ou, pelo menos, alguma personagem histórica como Manco Cápac, que o senador acabaria por resolver o seu problema mediante uma fantasia freudiana: colocaria à sua esposa, no momento do amor, uma pala de pirata no olho.»

Mario Vargas Llosa, A Tia Júlia e o Escrevedor, tradução de Cristina Rodriguez, Lisboa, Dom Quixote, 1988, p.54