Bem, eu procurei sempre fazer o melhor que posso o meu dever, tentando agradar só a uma pessoa, que é ao Senhor.»
segunda-feira, 17 de março de 2008
Uma pessoa
Bem, eu procurei sempre fazer o melhor que posso o meu dever, tentando agradar só a uma pessoa, que é ao Senhor.»
sexta-feira, 14 de março de 2008
quinta-feira, 13 de março de 2008
Eliot Spitzer
quarta-feira, 12 de março de 2008
Z
Quando Ferreira Fernandes plagia é porque já está tudo escrito e, naturalmente, a culpa não é dele.
domingo, 9 de março de 2008
Quantos instrumentos?
sábado, 8 de março de 2008
Vasco Valente
Porque Cesariny manda «rir de tudo»
quinta-feira, 6 de março de 2008
Exercício piroso, ultra-rápido, para a amiga-luz
Não penses
que não reparei em ti.
Triste e linda.
Não.
Linda e triste,
que mulher linda que não seja triste
é um bicho que eu nunca vi.
livrar-te da adversidade,
mas estava presa no escombro
da puta da realidade.
(estrofe anterior seleccionada para a segunda parte da marcha popular de Marvila do ano de 2009)
E depois, e depois?
Morreram os bois,
ficaram as vacas,
e eu,
diligente,
lá higienizei as minhas cloacas.
Deixei-te ir, pois foi,
no teu charme-blazer escuro.
Quando me livrei do docente,
quis-te toda contente,
mas já não soube trepar o muro.
(estrofe anterior com o apoio técnico da ETAR de Almargem do Bispo)
Perdi a cama do teu abraço,
para a cama da estupidez.
O assunto que me fez distante,
imagina/assassina(-me),
é qualquer coisa que eu vou boicotar.
Não,
não são rotinas,
são propinas.
Números omnipresentes,
condições deficientes
da esterqueira onde nos fomos amar.
(estrofe anterior de elevado conteúdo académico-contestatário; pode ferir susceptibilidades)
No fundo
(cava cava coveiro),
sabes que te abracei menos
porque o mais que tudo não podia ser ali.
Hei-de compensar-te, amiga-luz,
pelo tempo que te perdi.
(estrofe anterior solidária com os cadáveres do cemitério de Carnide)
O Bíquo
Mestre na arte da omnipresença, fez o que sabia melhor: abraçou-a com o pensamento. Depois, não se aguentou mais.
Ciências Sociais
quarta-feira, 5 de março de 2008
terça-feira, 4 de março de 2008
Para ser presidente não basta ser esperto; é preciso ser preto.
Alvin Toffler disse a Mário Crespo que ia votar com a sua mulher, Heidi (felizmente, ainda há casais que cultivam a mútua confiança), em Barack Obama, porque «um presidente dos EUA preto leva uma mensagem ao mundo». Parece-me que teria gasto menos palavras se dissesse que vai votar em Obama por Obama ser preto. No filme de Mel Brooks, o preto dá uma marretada na cabeça de um dos capatazes e é condenado à forca; o juiz que o condenou acaba por precisar dele para xerife. Vai desviar as atenções da cidade por onde vai passar o caminho-de-ferro da própria construção do caminho-de-ferro que, como qualquer incineradora de resíduos tóxicos, não interessa à conservação da pacatez daquele lugar. Barack Obama é o xerife preto de Balbúrdia no Oeste. Porque é preto, tornamo-lo presidente; depois, vemos se é competente. O preto de Mel Brooks era esperto, mas não foi isso que o tornou xerife. Obama também me parece esperto e, se o mundo não estiver perdido, haverá quem vote nele por isso.
Inspirações:
Entrevista de Alvin Toffler a Mário Crespo na SIC Notícias
Um Obama à portuguesa para a mesa cinco
Projecto de vida:
Ser o Ferreira Fernandes.
A cena de abertura de Blazing Saddles:
segunda-feira, 3 de março de 2008
Metalinguagem (outra vez, sem emenda)
Gosto genuinamente de palavrões. Admito que a assunção do gosto (e, quem sabe, até o próprio gosto) seja rara e que o uso de palavrões possa ser desconcertante para a sensibilidade de um ou outro leitor. Mas, repare, caro leitor, se o leitor não gosta do palavrão, então o leitor não é leitor. Porque eu vejo no leitor, em o leitor, um criminoso reincidente. Se volta cá, volta consciente de que pode voltar a ler um palavrão. Mas o que é importante, o que vim aqui dizer, é que eu gosto genuinamente do palavrão e isso o leitor, o verdadeiro, já deverá ter entendido. Gosto do palavrão sintomático, sintagmático, do palavrão-música, do palavrão-foco de reflexão literária, filosófica, geográfica. Não pense, caro leitor, que digo palavrões o dia todo. Não os digo e não me esforço para não os dizer. Pense, se quiser, que os penso. E penso. Também penso que o verdadeiro desafio literário está em procurar a alternativa ao palavrão, e não no palavrão em si. Nem sempre, com a alternativa, se pode concretizar o literário.
Às vezes, o literário é o real, porque o real soa demasiado literário para ser esquecido - é, de resto, o que costumamos fazer com ele. O que é que aquela personagem diria naquela situação? Co'a breca, c'um caralho? Tanto me faz. Sobretudo porque o que eu escrevo acaba onde começa a literatura e começa onde acaba o real. O que eu escrevo não é literatura e não é real. Aqui, eu escrevo-me; identifico-me (passei a identificar-me) por uma questão imoral de responsabilidade civil. Quero responsabilizar-me pelos palavrões que digo, sociabilizar-me por capricho e não por osmose. Na maior parte das vezes, isto de me escrever é uma seca para quem lê (e também para mim). Mas há quem leia. Isto não é um jornal, não é um livro; não é nada. Seria alguma coisa se eu, aqui, manifestasse opiniões. Tudo o que digo aqui que se pareça com uma opinião não é mais do que uma provocação que, na maioria das vezes, não funciona.
De acordo com as estatísticas, apenas 5% dos meus leitores concorda com alguma coisa que eu digo ou que alguma vez tenha dito. Isso corresponde ao dedo grande do pé do meu pai. Atravesso a passadeira só quando está verde e até já pago impostos. Nunca saio sem pagar a conta e levanto-me para a grávida se sentar no comboio, mesmo se, ao meu lado, estiver um marmanjo de 14 anos. Sei vagamente o que foi o 25/4. Não preciso de palavrões para ser livre. Não sou livre e já me conformei com isso. E não conheço ninguém tão livre que, de vez em quando, não se foda por isso.
(Muito obrigada, adoro quando puxam por mim.)
O homem que matou Liberty Valance é,
em português do Brasil, O homem que matou o facínora. Os títulos com a palavra facínora ganham sempre alguma coisa em relação ao original.
«libido scribendi»
Maria Gabriela Llansol é semiótica pura. Para mim, só com água, gelo e uma rodela de limão.
.............................................................................................................................................................................................................................................
.............................................................................................................................................................................................................................................
.............................................................................................................................................................................................................................................
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
Enfim ou de como wireless não é exactamente o mesmo que ubiquidade
O terapia metatísica encomendou a própria morte. Confiou-me a segunda parte do dinheiro para pagar ao seu assassino e deixou uma carta de despedida - toda em branco. O meu projecto falhou. Eu queria pôr em prática, de maneira desenvolta e arejada, um blogue saudável. Queria, em primeiro e último caso, ser lida. Fui lida, como nunca tinha sido. Houve quem gostasse de coisas que escrevi e houve muito quem exagerasse no gosto que me dedicava. Houve quem me lincasse e, presumo, se lincou foi porque gostou. A todas essas pessoas - que valeriam só por não serem máquinas -, só posso dizer uma coisa: discordo. É um direito do qual não abdico e que toda a gente pode exercer, tendo ou não um blogue.
Aprendi, nestes últimos meses que não contei, muitas coisas com o terapia. Aprendi a disciplina da escrita quase diária, por menos relevante que ela seja; com isto, aprendi a negligenciar outras disciplinas mais salutares para a manutenção do eixo gravitacional do nosso planeta e para a minha própria existência microscópica, tão limitada quanto as palavras de que disponho. Aprendi que as minhas opiniões são desprezíveis, não por serem minhas, mas por serem opiniões. Aprendi que há por aqui muita gente meio anónima que escreve muitíssimo bem e que, mesmo não escrevendo bem, pensa lindamente e isso já é uma vitória para os países que mais rapidamente sofrerão os efeitos da subida do nível médio das águas do mar.
Aprendi que gosto de jovens, aprendi que sou jovem porque, como todos os jovens, tenho características lamentáveis às quais só escaparei quando for mais velha - ou talvez nem isso. Com isto, aprendi também que posso usar roupa amarela e gostei de saber que não sou a única pessoa com menos de 30 anos a ouvir e a gostar de Fausto Bordalo Dias. Aprendi que, na música e na vida, aprecio sobretudo a dissonância.
Aprendi que Deus não deixa de ser Deus se lhe chamar O Grande Sacana, se o insultar e se lhe fizer perguntas inconvenientes. Não é porque Deus não exista, mas Deus é perfeito e, por isso, fala na melhor linguagem que há: o silêncio e o mundo. Aprendi, ainda antes deste blogue, que Wittgenstein radiografou o divino e só falhou em não ter guardado a radiografia para si e elaborado o diagnóstico mudo e esquecido no sofá do seu escritório. Alguém abriu a porta da sala de raios-x e W., cheio de esperança, saiu para espalhar a palavra e angustiar todos aqueles que, gostando de respostas, estão conscientes da insuficiência, às vezes cardíaca, de todas elas.
Cresci e o terapia suicida não cresceu comigo. Deseja, por isso, ser morto em silêncio. Porque fazer é falar e, se ele estiver quietinho no seu canto à espera da segada, não perturba a metafísica da terapia.
A contou-me hoje, ao almoço, que sugeriu ao próprio pai (patife como poucos são) que se atirasse para debaixo de um comboio, como já antes fizera o seu avô. A não se vai matar porque já desperdiçou todas as oportunidades que teve para o fazer. Se conseguisse, finalmente, suicidar-se, o caso seria ridículo e era muito provável que, no meio do sangue e da terra - as pessoas hoje em dia já não sabem matar-se de forma asseada -, se perdesse parte essencial da minha existência, que é a amizade que tenho por A e que A, sinto bem, tem por mim. Há pessoas que não se podem matar porque, simplesmente, há sempre mais alguém que morre com elas. Não sei para qual das duas partes pende mais o peso que, na balança, representa a injustiça.
Também aprendi que usar tísica em vez de física não é eficaz. Não me agrada que o terapia morra, ou seja, que se mate sem que alguns daqueles que o lincaram não tenham tido tempo ou atenção suficiente para trocar os éfes pelos tês. Paciência, eu também queria ser contralto e não me fizeram o gosto. Fizeram-me a folha.
Dirão, com certeza, que não há motivo nem entusiasmo para o meu blogue me ter ensinado tanto. E não há. Mas este foi o blogue que tive pelo qual mais me afeiçoei. Porque tem música e, etéreo, cheira a éter. Porque é branco e dá muito menos trabalho usar um blogue branco do que roupa branca, que precisa de cuidados e lavagens frequentes. O terapia é o asseio itself, em si, aí, um peido alvo que nunca me preocupou o suficiente para me fazer deixar de viver. É isso que aprecio num blogue e é isso que me faz desconfiar todos os dias da autenticidade semântica da vida: um blogue não é obrigação nem imperativo moral. A vida, às vezes, quer sê-lo.
PS: Não apago. Porque Wittgenstein's Vienna é um título demasiado bom para ser deixado à disposição de qualquer um (apesar de se basear miserável e vergonhosamente num excelente livro de título homónimo). Porque não me esqueço do desgosto que tive ao ver que o endereço Ceci n'est pas un blog não estava em branco e não quero deixar de proporcionar a outros um desgosto parecido com aquele que, na altura, me assolou. Porque talvez me apeteça, um destes dias, ter um blogue onde possa ilustrar a palavra justiça com a fotografia de um jacaré. Ou, talvez, com a gravura de uma cadeira.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Divórcio e polímeros: uma abordagem litúrgica na proximidade iminente da missa do galo
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
De certeza absoluta
que o Priberam é escrito por materialistas históricos ou, sejamos rigorosos, por pessoas de esquerda.
«burocracia
do Fr. bureaucratie
s. f.
modo de administração em que os assuntos são resolvidos por um conjunto de funcionários sujeitos a uma hierarquia e regulamento rígidos, desempenhando tarefas administrativas e organizativas caracterizadas por extrema racionalização e impessoalidade, e também pela tendência rotineira e pela centralização do poder decisivo.
classe dos funcionários públicos, especialmente os funcionários do Estado.»
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Alguém me pode explicar
desde quando é que o aniversário de José Saramago se considera um acto oficial onde devem estar presentes representantes do Estado português?
domingo, 2 de dezembro de 2007
Consideração tosca da qual cedo me arrependerei
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
A mania da perseguição
- Parece que a bebida também tem um problema consigo.
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Cinema e franguinho assado
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Breve maltratado das coisas que não existem [40]
Não percebo como a risota pode ser pegada quando, na verdade, ela só surge se a largarmos.
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Hoje, pela primeira vez, o meu blogue foi tido em conta pela imprensa. Numa notícia intitulada «Cibercrime sem punição».
Breve maltratado das coisas que não existem [39]
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Este blogue é uma seca; eu, uma enorme camela
Sou filha de pais separados e cresci na periferia de Lisboa. Tive amigos de todos os dias e amigos de fim-de-semana (alguns, amigos todos os dias). Na primária, saltava ao elástico com as outras meninas, que gozavam muito comigo por eu ter cabelo curto e jeito nenhum para aquilo. Às vezes, jogava ao mamã dá licença? ou ao lencinho. No recreio, a minha brincadeira favorita era o futebol. Rasgava calças quase todas as semanas.
Deixaram-me sempre brincar na rua. Atrás da casa da minha avó estavam a preparar o terreno para a construção de um parque gigante e eu fui para lá brincar sozinha. Quando dei por mim tinha o lábio inferior a jorrar sangue em quantidades ridiculamente abundantes. Tinha ido contra a pá de uma retroescavadora. Até hoje, não sei como fui contra a pá de uma retroescavadora, mas juro-vos que aconteceu, podem perguntar à minha avó.
Lembro-me de, uma vez, ter aproveitado a superfície do poço fechado do quintal para construir uma grande mansão para os Pinipons. O meu bisavô Zé construiu-me um baloiço e também uma casa de madeira para os Pinipons. Não brincava com Playmobils porque eles não cabiam na casa, mas cheguei a ter o navio pirata.
Depois, vieram os amigos: a Sarah e o seu irmão, o Fausto (tive um fraquinho por ele). Com a Sarah costumava cantar por cima das canções que tocavam no leitor de CDs. Jogávamos Mega Drive, Master System e, depois, Sega Saturn. Às vezes, fazíamos piqueniques e, um dia, chegámos a ir para o parque às 8h da manhã, de radiografia na mão, para ver um eclipse qualquer. Nunca estudávamos. Deixámos de nos falar no secundário. Nunca percebi porquê e talvez isto não tenha explicação.
Aos fins-de-semana tive a Inês, já vos falei da Inês. Brincávamos na rua, até às tantas, de bola e de bicicleta, de patins. Um dia, a Inês tinha uma muleta qualquer em casa, não sei bem porquê. Levou a muleta para minha casa e aproveitámos um saco de meias brancas e velhas de desporto que por lá havia. A Inês calçou cinquenta e quatro pares de meias no mesmo pé e quis passear-se comigo na rua, a fazer-se de engessada - não sou capaz de me lembrar disso sem morrer um bocadinho a rir.
Quando se comprou, já na casa de Cascais (para onde eu também só ia aos fins-de-semana e nas férias) um grande televisor, daqueles de setenta e tal polegadas, aproveitámos a esferovite para fazer um centro de operações do FBI, com ecrãs e botões inacreditáveis. Um dia chateámo-nos durante umas horas porque a Inês estava a tentar explicar-me o que era a inteligência. Desculpa, Inês; só agora, muitos anos mais tarde, percebo o que querias dizer. Que a inteligência em si não tem valor nenhum, que sem luz e carácter a testa não nos serve para nada. Hoje, graças a ti, sinto-me um bocadinho mais inteligente - não pode ser muito, senão morro de inchaço.
No 7º ano conheci o Filipe e o André e andávamos mais preocupados com assuntos de outras dimensões. Comunismo, ecologia, gozar com os professores. Depois ficou só o Filipe, a pessoa, provavelmente, com quem eu mais ri na minha vida. Obrigada, Filipe, por me teres ensinado que as palavras também são brincadeiras. Brinquei muito e acho, mesmo assim, que não brinquei grande coisa. Hoje, tenho irmãos mais novos, gosto de vê-los brincar e de brincar com eles. Não sei se eles brincam bem ou se brincam o suficiente, mas acho que isso não tem importância nenhuma. Porquê? Porque Freud é um imbecil.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
MP tem prova de que Fátima mentiu
Isto é o título de uma notícia do Correio da Manhã. MP está para Ministério Público como Fátima está para Felgueiras. No terapia, o lead reza assim:
Please repeat after me, o último post da noite em dialecto tibetano
A ti, abençoado galão de máquina que me tiraste o sono.
Breve maltratado das coisas que não existem [38]
DL = David Lynch/Dalai Lama
Quando Lynch abriu a boca percebi-lhe logo um sotaque carregado a resvalar para o sulismo e um tom molengão à George W. Bush. Pensei que a tarde estava salva quando o homem respondeu à letra a uma pergunta que estava mesmo a pedi-las: «What is your feeling between [between?] the sleeping dreams and the waking dreams?», «Well, in sleeping dreams you're sleeping and in others you're awake.» David Lynch e uma sitcom têm, pareceu-me, muito em comum.
Fizeram-se perguntas interessantes e, nalgumas, Lynch não desiludiu. Uma delas, que me deliciou, dizia respeito à importância da imagem digital no seu cinema. Lynch não voltará a filmar em película, não quer esperar para ver resultados, a câmara está sempre pronta para reagir a coisas bonitas que acontecem e isso conserva a magia da vida no cinema. Na repetição dos takes, acredito (como Lynch), muitas coisas se podem perder.
«All things are instruments», outra coisa bonita que disse. Todas as coisas são instrumentos e o homem é o decisor supremo. A onda zen de Lynch permitir-lhe-á, talvez, sentir-se mais próximo da extravagância nietzschiana do super-homem. «You gotta be true to the idea and hear your inner voice», pois.
Diz um rapaz que, a dada altura, lutava (Lynch demorou meia hora a perceber que a palavra era "struggling") para entender INLAND EMPIRE (seria este)? Lynch achou bonito. «David, estás a fazer filmes para o inconsciente?» Curioso que nunca, em momento algum, se falou naquela sala para «mister Lynch». Era o mínimo que se podia fazer para uma pessoa que entra a fumar e de troféu na mão. Não, o David não faz filmes para o inconsciente. «Na experiência de felicidade infinita [que nos vem através da meditação transcendental] o inconsciente torna-se consciente, a intuição chega e é muito importante para o artista. [Nesta altura o artista gesticula com os dedos, como se estivesse a largar confettis] For the artist, intuition is the number one tool, it's a kind of knowing when something isn't correct and making it correct.» A intuição é a principal ferramenta do artista. Bonito, isto. Pena que haja artistas sem intuição nenhuma e que, coitados, não experimentam a felicidade infinita porque não sabem ou não lhes apetece a meditação transcendental.
A raiva, a depressão e a melancolia no artista são, para Lynch, «a way to get chicks». A educação é um infernozinho para onde se vai depois do pequeno-almoço. A escola, «especialmente na América» (aqui verificámos a vastíssima cultura do David em relação à educação europeia em geral e portuguesa em particular), serve para se aprender uns factos que depois se usam no trabalho, «another kind of stress».
«First, seek the kingdom of heaven that lies within. (...) There's huge, unbelievable potential for the human being», oh não, onde é que eu me vim meter?! O momento Igreja Universal do Reino de Deus versão dalailamizada repetiu-se várias vezes naquela hora. Um ou outro parecer sobre arte salvou os momentos restantes. E também ajudou o facto de eu não estar a levar a coisa a sério. E o facto de David Lynch ser um gajo simpático que pantomima bastante.
Analisado noutra perspectiva, o cume da tarde podia ter sido uma vulcanização de senso comum: «Não é preciso sofrer para mostrar o sofrimento.» Finalmente, David, percebo que não és só pregador, afinal também és artista e às vezes muito bom. Diz a minha amiga S. que Mulholland Drive a marcou para sempre por ter das melhores cenas de cama de todos os tempos. Aprecio os artistas que fazem boas cenas de cama, sobretudo se essas cenas envolverem duas pessoas de sexos distintos. Não é o caso e não é preconceito. É uma questão de tesão e, infelizmente, cada um sabe do seu.
Desilude-me um pouco a visão de Lynch sobre a Internet. Serei demasiado democrata? Acredita que a pirataria desmotiva os artistas que não podem continuar a trabalhar se não tiverem uma compensação monetária para os seus próximos projectos. Para ele, segundo o modelo de liberdade que impera na pirataria, as coisas estão a ser dadas e não estão a ser valorizadas.
Engano redondo. Há muito dinheiro a circular no mundo, em todos os campos, incluindo o do entretenimento e, se quisermos, da arte. Esse dinheiro não vai deixar de circular. Surgirão, como tem acontecido até agora, novos modelos de negócios. A loja i-Tunes é um sucesso e as grandes companhias discográficas estão deixar de proteger os seus ficheiros, porque vendem melhor assim. É claro, David, que ver o 2001 Odisseia no Espaço num ecrã de telemóvel não é o mesmo que vê-lo numa sala de cinema (este foi, mais ou menos, o exemplo dado por Lynch). Mas, ó David, não é preferível que qualquer ser humano no Mundo tenha visto Kubrick nas miseráveis polegadas de um Nokia? Não é preferível que tenha ouvido Richard Strauss e Johann Strauss num Kubrick através de uns auriculares da treta? Achas que o verdadeiro artista prefere, realmente, que o seu potencial público vá antes à feira do Monte Abraão comprar uma gravação do Armageddon com um tema sofrível - mas que fica no ouvido - dos Aerosmith? Enfim.
«Peace, dynamic peace, creative peace.» Mais um momento propagandista salvo por uma pergunta desnecessária e um sentido de humor acertado. «Would you chose a city like Lisbon to shoot a movie?», «If the movie is about coming to an airport and sitting in a van to come to a masterclass, yes!»
Mais meditação transcendental. «You could say this Lynch guy is nuts but you can try it and see the results.» Escolhi. «This Lynch guy is nuts.»
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Terceira Lei da Termodinâmica
Um zero, por muito que esteja à esquerda, nunca corre o risco de se tornar absoluto.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Física para mulheres
Se bem me lembro, a Primeira Lei da Termodinâmica funda-se na seguinte premissa: em sistemas de todos os níveis (do intestino de uma formiga à linfa do Universo), existe energia e essa energia conserva-se nas interacções entre sistemas ou entre um sistema e as suas imediações que, voilà, também são sistemas. Exemplo canónico, falacioso do ponto de vista científico, mas ainda assim aceitável: um moinho de água. A água é a energia do moinho, o moinho mói cereais que dão farinha, a farinha transforma-se em pão, eu como o pão e alimento-me, os meus filhos hão-de alimentar-se de mim e, quando morrer, se não se lembrarem de me cremar, eu hei-de alimentar os abutres ou os vermes.
É mais fácil concordar com a Primeira Lei da Termodinâmica do que com a Segunda. Discutimos com o nosso cônjuge - eu tinha de arranjar uma boa razão para usar esta palavra num post e aqui está ela, a Primeira Lei da Termodinâmica - e ele exaspera-nos. Num primeiro momento, a energia que perdemos a fazer-lhe ver que não fomos para a cama com o pasteleiro transfere-se para ele que, eivado de fúria, nos dá com uma cadeira nos cornos.
Quando o nosso cônjuge - segunda vez, vamos lá ver se isto não se torna um hábito - percebe a asneira que fez, isto é, que lixou o tapete de Arraiolos que a avó fez propositadamente para a sala de jantar, perde toda a energia e agarra-se a nós aos beijos e abraços, lambe-nos o sangue da bochecha esquerda e toca a lavar-nos as madeixas com Betadine - isto é a família portuguesa depois de uma sessão de violência doméstica em horário nobre.
A energia que se dissipou do alegre ambiente familiar que vivíamos transfere-se, como não podia deixar de ser, para o vizinho de baixo. O vizinho de baixo, cornudo e conformado, transferiu a energia que ganhou ao acordar do seu sono de meia hora (enquanto o jantar está na Bimby) para o pau da vassoura que fez bater no tecto para que ouvíssemos a pancada do chão. O tecto tem uma racha, a racha abre-se mais e, em resultado disso, cai no chão um grande bocado de gesso.
O vizinho fica fodido e decide telefonar para a polícia a dizer que a gritaria lá em cima foi tanta que lhe caiu no chão um bocado de tecto. O dia correu mal ao polícia de serviço que, ao ver o espectáculo de sangue em cena no tapete, decide bater com a cabeça do nosso cônjuge - mau Maria! - na parede por vinte e sete vezes enquanto exclama «Eu odeio homens que batem em mulheres!». Foi na parede esquerda do hall de entrada que, por acaso, dá para o vizinho do lado.
O polícia, sem querer, mata o nosso cônjuge. Ocorre ao vizinho do lado tirar os auscultadores por uns segundos, não vá a mãe ter batido à porta para trazer o tupperware da sopa. Ouve o vizinho gritar, que é a coisa mais parecida com a realidade que ele alguma vez conheceu depois do jogo GTA Vice City para Playstation. Chama a polícia. Entretanto, o senhor agente de serviço já deu um tiro nos próprios miolos porque a sua mãe também levava porrada e as crianças apareceram no hall a chorar e viram o pai desfigurado.
Nós sobrevivemos. Passa uma semana da missa de sétimo dia e o nosso cabelo ainda cheira a Betadine. Os transeuntes fogem de nós e, no Universo, toda a energia se conserva.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Suicídio narcisista - o que escapou a Durkheim
terça-feira, 13 de novembro de 2007
To the Moon
Dois alienados com muita coisa para fazer e pouca vontade de mexer uma palha constituem-se, alegremente, sócios fundadores e membros honorários de uma coisa que, dependendo do grau de embriaguez em que se mantiverem e da qualidade da associação humana que surgir, tem tudo para ser um grande projecto.Nuno, cúmplice, amigo blogger e inspirador exclusivo deste projecto - sem querer, não duvido - aproveito, agora que o mal está feito, para te alertar para o facto de, a este clube, se poder associar qualquer pessoa que, mesmo que não goste do Mestre, se inscreva gnosiologicamente neste maniqueísmo de algibeirinha. As potencialidades são inúmeras: eu não queria pertencer a um clube onde todos concordassem com todos e, muito sinceramente, também não me apetecia limitar-me a discutir se os anos da Capitol são melhores do que os da Reprise. Mas lá que quem não gosta de Sinatra não é filho de boa gente, isso é verdade. E daí, os coitados dos pais não têm culpa nenhuma. O e-mail funciona e aguarda interessados (e desinteressados) com aleivosa ansiedade.
Com entusiasmo e em nome da Pau de Cabinda Connection Produções,
Filigraana Alberta
And don't tell your papa!
Diz a esse Grande Sacana que Ele não tem o direito de dispor assim da tua vida.
A paixão de Fourier ou de como usar duas vezes o mesmo trocadilho com absoluta ineficácia
- Vai-te! Não há lugar para ti no meu falanstério.
E, temendo a foice, ela foi-se.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
domingo, 11 de novembro de 2007
Mais uma correnteza - quer-me parecer que isto não combina comigo.
Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, por causa dos nossos fluidos naturais.
Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, porque gosto de casas e de homens de pijama em Technicolor.
Playtime, de Jacques Tati, porque há filosofia na arquitectura e graça na filosofia.
A Festa, de Blake Edwards, porque o Peter Sellers de indiano me faz morrer a rir.
O Sétimo Selo, de Bergman, porque sim.
A Estrada e O Trono de Sangue não estão porque The Shining, Manhattan e Salò também não estão e, se vamos falar de chorar, então façamo-lo Voando Sobre um Ninho de Cucos.
Cinco bloggers? Não posso, dá muito trabalho.
O que é bom para a tosse
Num mundo perfeito, de paixão e vísceras (de matar o Bill), seria isto que teria acontecido. Na verdade, o que aconteceu foi que as senhoras continuaram a fumar e a conversar alto sobre a forma como os fumadores são obrigados a respeitar os não fumadores e os não fumadores não respeitam os fumadores. Os cidadãos imperfeitos comeram tudo no carvão e, ao chegar a casa, lavaram os cabelos para não intoxicar a almofada.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Telejornal em Estocolmo
Gastroenterologia
O egoísmo inevitável ou de como já faltou mais para me tornar beata
«muita gente a pintar a mesma paisagem»
Relato de um magusto sem uma única castanha
domingo, 4 de novembro de 2007
senhor sustento
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
A correnteza
*os itálicos inesperados são meus.





