sexta-feira, 16 de maio de 2008

Fomos plagiados

Disse-me a Menina Limão, num emílio que muito agradeço, que fui, como ela e outros bloggers, plagiada por um tal Luís (Ladrão). É pena que o blogue dele já não esteja bem online porque, além de me apetecer a cortesia do lincar, sempre apreciei ver outros na minha pele, para verem como é alto o preço da genialidade. No tal Luís, que conseguiu a proeza de manter o blogue online durante dois anos, espanta-me o bom gosto. Não faz, naturalmente, a coisa por menos. Para quê plagiar Miguel Sousa Tavares se existe James Joyce? Também não me estava a ver a plagiar o Pedro Mexia tendo o Dick Hard disponível... enfim. A verdade é que o assunto é sério e, se bem me lembro, escrevi aqui algumas coisas sobre plágio. Nalgumas disse, até, que podiam plagiar-me à vontade, que não me importava. Como só metade dos portugueses tem sentido de humor e, infelizmente, dessa metade, só metade tem residência na blogosfera, deduzo que algum idiota - um bocadinho mais fundamentalista do que eu - tenha levado a recomendação à letra.

A Menina Limão baptiza, no tal emílio, um plágio a um dos meus posts como "a pérola de todos os plágios". O post - original, a menos que o outro tenha sido escrito antes, mas isso era o meu pensamento a antecipar-se ao meu pensamento e isso, apesar de eu comer muita fruta, parece-me improvável - é este. O dele - vejam só que maravilha, o Google guarda as páginas, mesmo depois de apagadas, em cache, e ainda por cima tem bilhar e piscina nos headquarters - é este. Como se vê, o estetoscópio muda tudo.

Estou solidária com os plagiados. É muito irritante sermos plagiados intencionalmente, porque plagiar, reza a teoria do texto, é aquilo que, por falta de alternativa, vamos fazendo todos os dias. O plágio intencional e as desonestidades em geral merecem o abrigo da responsabilidade criminal. Escrevi, uma vez, que «os plagiários são órfãos que, para provar que não têm nada dos pais, só sabem ser como eles.» Mentira: são mas é uns grandes cabrões.

Perry Como?

Plágio de mim própria com inspiração aqui.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A minha Feira do Livro

Eu cá, também gosto do sobe e desce. E das cores, umas melhores do que outras - é sempre uma surpresa: nunca sabemos qual é que nos calha, mas eu cá gosto do preto ou do cinzento escuro, pelo menos por dentro, fica mais elegante e que bela que esteve a Cotovia no ano passado. Nós, é verdade. Vivi os dois últimos anos de Feira do Livro do lado de dentro de uma das barraquinhas. Não faço publicidade? Faço. Foi na da Cavalo de Ferro onde, aposto, podem comprar, entre uma catrefa de prémios Nobel com nomes esquisitos, uma bela t-shirt, um magnífico "A Vida Sexual de Immanuel Kant" e a "Obra Gráfica Completa" de Paula Rego por um preço inacreditável - até para mim, que prefiro Magritte e frequento a Taschen, regardez les masses (é assim que se escreve?).

Não desanimem: não estarei lá este ano. Um jornal das redondezas deu-me guarida para estágio - que agradeço - e tirou-me o prazer de ver a Feira do lado de dentro, de abrir a portinhola às crianças mais curiosas e descer a encosta calcetada de quarenta em quarenta minutos para comprar nougats ou cavacas à senhora simpática que fica a meio caminho, junto ao pedaço de chão sem relva que une o lado da feira com Sol ao lado da feira com Sombra. É sempre bom ver a Feira do lado de dentro porque, na noite do último dia - geralmente, a única que sobra - se vai comprar com desconto de editor (aquela simpatia que as editoras mais antigas não gostam de fazer a quem a solicita) "O Italiano Sem Mestre", "O Alemão Sem Mestre", "O Francês Sem Mestre" e "O Espanhol Sem Mestre", bestsellers do poliglota aspirante cuja mesada não serve para dez refeições no Kentucky Fried Chicken.

A minha Feira do lado de dentro é uma confusão, como a do ano anterior em que, muitas vezes e graças a Deus, não tivemos mãos a medir e, falo por mim, deixei a ex-ministra da cultura à espera de um Collodi e de um Laxness durante dez minutos, porque às vezes o terminal multibanco e o satélite dão-se mal como se fossem o Alberto Gonçalves e um velho militante do Partido Comunista que canta de cor a "Estrela da Tarde" (era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia eu esperava por ti tu não vinhas tardavas e eu entardecia era tarde tão tarde que a boca tardando-lhe o beijo mordia quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia e na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o Sol amanhecia era tarde de mais para haver outra noite para haver outro dia). A minha Feira do lado de dentro é a feira (perdoem o critério da maiúscula - é mau, que eu sei) do cano roto que maltrata os vizinhos e nos obriga a salvar livros e caixas de cartão antes que desapareça tudo e não haja para a troca. É a feira das pessoas que perguntam se, ali, na Cavalo de Ferro, se vendem livros de equitação, a feira dos coleccionadores - como eu - que aparecem de sorriso solícito a pedinchar marcadores de livros; é a feira dos tipos que só perguntam "Tem catálogo?" e zarpam alegremente para a próxima barraca - são os mesmos todos os anos, sabe-se lá que profissão terão, talvez funcionários do Índex.

Mas a minha Feira, felizmente, não é só a que vejo do lado de dentro. É a ocasião de apontar com o dedo (para uma cadeira de plástico, que só deprime se não gostarmos de quem lá está sentado) e dizer "olh'á'li o Lobo Antunes". É a feira das noites amenas de mochila às costas, carregada, de um geladodemilsaboresdeliciosamenteartificiais servido por aquele senhor de unhas encardidas que, para chegar ao fundo do carrinho (onde, invariavelmente, está o chocolate), encosta o cone ao sovaco, e a coragem de que precisamos para não pensar naquela distracção da ASAE quando voltamos ao périplo com o gelado a derreter-se-nos entre os dedos. A minha Feira do Livro é a feira de estar tão cansado e não conseguir ver mais nada, mas não faz mal, "amanhã depois das aulas vimos outra vez". É a feira de rir de tudo, dos títulos e das conversas, mas sobretudo daquelas fotografias tétricas nas montras de alguns stands, com os grandes magos da esoteria (desculpem se sou redundante) em sorrisos hipnóticos, tão anos setenta.

A minha Feira é a feira de perder os amigos da mão e perdê-los para os alfarrabistas; saem de lá a cheirar a mofo, com romances de cordel em saquinhos de plástico de mercearia - já se sabe, uma cor só - que talvez nunca (se) venham a ler. E, claro, é a feira dos jacarandás em flor, das flores de jacarandá, alfacinhas e omnipresentes como, ultimamente, só os fiscais da EMEL sabem ser (e fazem eles muito bem). Podia falar também do que, além de livros e histórias, me tem acontecido na minha Feira do Livro: encontros, desencontros, quedas, tropeções e desgraças financeiras, que só há pouco tempo fui legalmente autorizada a entrar em casinos e, entretanto, tive de me distrair com outras imoralidades.

A Feira do Livro de Lisboa é a Feira do Livro de Lisboa e peço perdão pelo discurso ultratautológico, mas é isso mesmo. Ver tipos a andar de trotineta eléctrica na feira para anunciar um grupo editorial pequeno comparado com a Leya já foi suficientemente deprimente no ano passado e, se me permitem a opinião, foi também desleal para quem não é pindérico. A Feira do Livro de Lisboa, como tem sido até agora, é uma feira como, acredito, se fará em muito poucos lugares do mundo. É um passeio de Primavera feito para pessoas que, numa cidade com cada vez menos vida, querem passar tempo num sítio onde não estejam sós e mal iluminadas. "Temos de ir à Feira do Livro": é o que me dizem, todos os anos, as pessoas que eu conheço que , habitualmente, não compram livros. Se vão, acabam por comprar e isso é bom para todos. Cedo ao lugar-comum que também me toca e digo - atrevo-me - que a Feira do Livro é uma festa, saudável e informal, que me habituei a viver desde pequenina. Ao ar livre, sim. As livrarias são para as vontades e para as emergências, as alcatifas para os ácaros e para os hotéis dos filmes do Kubrick e as cadeiras de massagens para os funcionários da Google. Há mudanças possíveis, e muitas, para melhor. Os stands podem (e devem) ser outros - estes são exíguos para albergar a maioria dos catálogos e estão muito expostos às intempéries - e não têm, necessariamente, de ser iguais para todos. Acho que não é esta, no entanto, a boa democracia, em que a oportunidade serve apenas uns e, invariavelmente, como no chocolate, se dá o sovaco e que se lixem os outros. A Feira do Livro é, repito, para pessoas e serve para comprar e não comprar livros, se é que me faço entender. Porque os estágios, por mais simpáticos que sejam, nem sempre são remunerados.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Generalização precipitada

Há pessoas que adoram dar um (bom) conselho. Pena que o conselho seja daquelas coisas que ninguém, mesmo quem dá, aprecie receber.

domingo, 11 de maio de 2008

Inveja

De todos os pecados mortais, o meu preferido é a inveja. Porque, ao contrário dos outros pecados, a inveja não requer trabalho, apenas imaginação. Não podemos ser gulosos sem ter dinheiro para comer, nem gananciosos se não nos dermos ao trabalho de arquitectar falcatruas, nem cedemos à ira sem que isso nos custe, ao menos, um ranger de dentes e um ligeiro rubor. Do mesmo modo, não há luxúria sem queda para o engate (sim, porque gente bonita não há para aí a rodos), nem preguiça sem grande força de vontade (quem, além de um corajoso, suportaria mijar-se nas calças por preguiça de se levantar?), e muito menos vaidade sem muita paciência. A inveja é, realmente, o único pecado mortal verdadeiramente preguiçoso. Tão preguiçoso que, se me é permitida a ousadia, chega a ser inocente. Se não, vejamos: a inveja é-nos frequentemente solicitada pela criatura invejada. Invejamos sempre quem, sendo melhor que nós, está mesmo a pedi-las: vá lá, põe-te no meu lugar. É tudo mais fácil quando estamos no lugar dos outros.

Banda sonora para este post: Imagination (embed disabled by request), Frank Sinatra. Melhor com Tommy Dorsey e a sua orquestra, mas não se pode ter tudo - pelo menos enquanto a pirataria não for despromovida da sua condição de pecado mortal.

Quando, esta manhã, em conversa com Pedro Rolo Duarte, Rita Redshoes utilizou a expressão "blogues de personalidades e também de pessoas comuns", desliguei o rádio. Não me interpretem mal: eu adoro ser uma pessoa comum.

Para meu grande desgosto,[não estou certa da pertinência da localização desta vírgula, mas isso é uma coisa com a qual terei de viver] fui percebendo que quem me cita cita sempre os meus piores textos. Queixei-me disto a uma pessoa que não fez disto grande caso [o segundo disto é propositado, lamento qualquer desconfiança plástica que possa causar ao digníssimo leitor] e me disse, ainda por cima, que era natural porque, para mim, os meus piores textos são os meus únicos textos compreensíveis. Em suma, foi aí que, finalmente [doravante, pedirei desculpa de cada vez que utilizar um advérbio de modo] percebi que os meus piores textos são todos os meus textos. Esperando que alguém citasse o meu silêncio, fiquei uma semana sem escrever. Segundo contadores de visitas, referências e outras trafulhices disponíveis, durante esta semana citaram-me, algumas vezes, textos antigos - mesmo que não tivessem ainda mais de uma semana. Não sei o que é que as pessoas têm contra Malevitch ou João César Monteiro; nem vejo, naturalmente [peço perdão], o que poderão ter a meu favor.

domingo, 4 de maio de 2008

Dia da Mãe ou de como tudo é relativo

Quem é o maior, quem é? O Gandhi da esferográfica.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Magnífica piada que me foi contada por um grande amblíope

- O que é que diz um cego quando pega num ralador?
- "Mas quem é que escreveu esta merda?"

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Um pouco de história romana

Para Tácito, Roma só ardeu por nero acaso.

Notas sobre a mitologia dos gregos (7)

Páris matou Aquiles por excesso de tornozelo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

«ONU discute em Berna crise alimentar mundial»

Eh pá, ainda bem que me avisam. Amanhã não vou às aulas.

Porque sou contra o Acordo Ortográfico

Porque também sou contra a diplomacia. E porque ereto não me dá tesão.

O autodidacta

nunca desperdiça nada de mau que a vida lhe possa dar.

Um dia, houve uma pessoa que me disse: «Tu hás-de ter sempre aquilo que queres.» Obviamente, a pessoa não fazia ideia daquilo que eu queria; nem considerou, segundo parece, que eu pudesse estar na mesma situação.

Há três ou quatro coisas que eu abomino. Uma delas, sou eu. As outras são o incesto, a pedofilia e a caldeirada de peixe.

O que mais me assusta na morte é imaginar que, por algum motivo socialmente incontestável, vou estar acompanhada quando ela me surgir. Odeio festas.

A morte faz-me lembrar o meu primeiro exame de condução: fui a segunda a chumbar. Para a analogia ficar certa, só me resta dizer que já vi mais gente morrer antes de mim.

Um mau empreiteiro permite que sintamos, nas escadas do prédio e ao fim de um dia de trabalho muito cansativo, o cheiro do jantar dos nossos vizinhos. Deus mostra-nos objectos que não podemos ter, sítios onde nunca vamos estar, amores que não podemos viver. No fundo, a vida é como uma prova de vinhos: aperfeiçoa-nos os sentidos para distinguirmos o que é bom do que não presta. E deixa-nos concluir que, se a provássemos toda, não chegávamos ao fim pelo nosso próprio pé.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Impossível

Jogar Free Cell sem free cells.

Os livros em Portugal voltam a estar na moda. Más notícias para a Renova.

O Público trazia hoje na primeira página o seguinte título: "Sequestrou filha durante 24 anos e fez sete netos". Sei que poderia ter visto este título no Correio da Manhã, se bem que, para simplificar, talvez os jornalistas do tablóide tivessem ignorado a segunda linha de parentesco.

Se John Cleese parece representar-se sempre a si mesmo, Prunella Scales tem de ser uma grande actriz para, não se representando a si mesma, representar a mulher mais irritante do mundo: Sybil Fawlty.

Querido Manuel

No sítio onde trabalho, tenho reparado que as mulheres nunca lavam as mãos antes de sair do WC. Nunca gostei de ambientalistas.

Tenho 106 e-mails pessoais para ler e já arrumei os importantes. Comprei uma escova de dentes que cheira a Gorila de mentol e, aparentemente, o café já não me faz mal. Não dou esmolas. Alguns dos e-mails que recebo são de um bar de putas na Póvoa de Varzim. Não gosto do layout do meu blogue. Não tenho tempo para os meus amigos. Dei cabo de um frasco de manteiga de amendoim no domingo, com mini-tostas de acepipes. Apetece-me comida indiana. Ou um Toffee Crisp. Ofereceram-me o novo CD do Fausto e fiquei muito contente. Tenho vários abraços e um presente de aniversário para dar (se bem que nos abraços nunca sei se, ao dar, não sou eu que recebo mais). Devo telefonemas, organizações de programas, dedos de conversa. Não tenho lá muito dinheiro. Encontrei uma loja que vende uma Nikon F, sim, daquelas de 1959 - estava fechada, vou lá amanhã. Estive quase para comprar, na Feira da Ladra, uma câmara Super8, com gravação sonora!, mas depois reconsiderei. Como disse, não tenho lá muito dinheiro. Tirei a guitarra do armário e, apesar de ainda não tocar nada, sei que está muito desafinada. Não me apetece trabalhar. Preciso de ler uma boa biografia. Se pudesse, reconsiderava todos os passos da minha vida. Mas, como ouvi dizer uma vez o Joaquim de Almeida, o arrependimento é uma perda de tempo. Não sou feliz, mas gosto de utopias. De vez em quando, com Bossa Nova e ginger ale a acompanhar.

de Viena

Quando não entendo o significado do silêncio, não pergunto. Tenho um certo talento para resistir à humilhação. O método chama-se gestão sustentada da ignorância. Não é bom nem inédito. Mas um nome pomposo fá-lo parecer importante. Ou ridículo. Ou.

Justificação III

Que merdas foram estas que acabei de dizer? Foda-se, nem parece meu.

Justificação II

Não tenho postado porque, finalmente, trabalhei numa coisa que me deu prazer. Também me deixei absorver por responsabilidades adiadas. Logo eu, que não gosto de adiar nada, a não ser a hora de ir para a cama, quanto mais responsabilidades. Gabei-me muito, em idade escolar - como se não tivéssemos todos obrigação de estar em idade escolar até na véspera da nossa morte e, se possível, no próprio dia - de praticar uma espécie de preguiça inteligente: trabalhar arduamente e com a máxima rapidez para ter, depois, mais e melhor tempo livre. Funcionava assim com os trabalhos de casa para o fim-de-semana. Atirava-me aos cadernos na sexta-feira à tarde, ficava com o fim-de-semana para disparatar e só voltava à realidade na segunda-feira. Foi então que ganhei o estranho hábito de passar os domingos de pijama; muitas vezes sem chegar, sequer, a tomar banho. Ainda hoje me sabe bem. Mas apercebi-me, com o passar dos anos e com o adensar das responsabilidades, de que a preguiça inteligente é uma ilusão. Quanto mais coisas fazemos mais coisas temos para fazer. E as ideias são como as doses de cocaína: se nos surge uma, tomamos-lhe o gosto e andamos sempre à procura de mais. Sempre pensei que não conseguia ter ideias. Agora tenho algumas. Banais, medíocres, mas não faz mal. Se as concretizar bem, posso chegar com facilidade às pessoas banais e medíocres. Somos todos iguais. Gosto disso.

Justificação

Tenho estado alheada por motivos alheios à minha pessoa.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

terça-feira, 22 de abril de 2008

¨ ¨ ¨ ¨ ¨ ¨ ¨ ¨

sábado, 19 de abril de 2008

Perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto perdi isto

Oh não, perdi isto. Isto:





Isto é, Emir Kusturica, mas em bom.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dou-me conta de que pareço straight edge; não sou. Estou viciada nisto:

sXe

«Straight Edge (abreviado para sXe ou SxE) é um modo de vida associado a música Punk/Hardcore. Ele defende a total e perene abstinência em relação ao tabaco, álcool e as chamadas drogas ilícitas. Algumas pessoas tendem a associá-lo a vida sexual regrada, sem promiscuidade, mas isto não faz parte do foco inicial.»

A rapariga straight edge

nunca podia aproximar-se de um rapaz pedindo-lhe lume.

O rapaz straight edge

nunca engatava uma miúda perguntando-lhe "posso pagar-te uma bebida?".

Há coisas que a Língua Portuguesa não tem

Por exemplo, a palavra nightingale.

Somewhere in space I hang suspended

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Vício

álogo

- Tu consegues, eu tenho confiança em ti.
- Eu não.

Deves odiar não apenas as pessoas que conhecem mais palavras do que tu, mas sobretudo as que usam melhor do que tu as únicas palavras que conheces.

Irrita-me muito ver as minhas private jokes na boca dos outros. Como se fossem, como se pudessem ter sido partilhadas por aqueles com quem eu as partilhava antes. Vez por outra, decido que não volto a rir. Também me aborrece muito não conseguir cumprir promessas. E não mandar no destino. Ou seja, não mandar em nada.

lembrete incómodo

Primeiro a má notícia: a omissão de auxílio dá direito - salvo seja - a condenação. O crime de omissão de auxílio parece-me mais ou menos equivalente a um outro que raramente envolve condenação, o de filha-da-putice. A boa notícia é que, como na filha-da-putice, a pena pela omissão de auxílio também já pode, finalmente, ser cumprida em casa.

sábado, 12 de abril de 2008

Preciso de um(a) professor(a) de guitarra. Estou a falar a sério. Para ser assim.

Enfim, para não me aborrecer tanto com os acordes maiores e menores.

Projecto de vida

Livrar-me da minha raciosina.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Ten thousand dollars

Há dois anos que o prémio Pulitzer para "Feauture Photography" é ganho por uma reportagem sobre um doente em fase terminal. Em 2007, Renée C. Byer seguiu um menino de dez anos com cancro. No dia em que a mãe desse rapaz soube que lhe restava muito pouco tempo de vida, decidiu deixá-lo conduzir até ao final da rua. Fiz daquela fotografia um filme e não me esqueço do que vi. Os momentos indizíveis em que a alegria profunda se confunde com o profundo sofrimento. A certeza de que se pode ser e não ser, estar e não estar, tudo ao mesmo tempo.


Neste ano, a protagonista da história vencedora, contada pela objectiva de Preston Gannaway, é uma senhora que foi internada com urgência, com uma infecção nas glândulas salivares. Pouco depois, soube que ia morrer. A legenda explicativa não me parece clara, mas suspeito de que a "infecção" fosse alguma espécie de carcinoma mortal - enfim, carcinoma ou não, mortal foi de certeza. No filme desta reportagem, o
que me ficou foi um fotograma, a aura estática de um outro movimento - o da vida-areia, a escapar-se-nos das mãos. A filha adolescente da senhora faz questão de sair à noite. O pai teme que aquela seja a última noite da mãe; não quer que a filha saia. Acaba por ceder; a filha sai. Naquela noite, a mãe morre, velada no quarto pela restante família. O fotograma que eu vi foi um que não estava lá. O que aconteceu no segundo em que aquela filha ouviu a porta de casa bater atrás de si. O segundo em que já não era possível voltar atrás. Pergunto-me se o carcinoma-arrependimento matará também aquela jovem. Pergunto-me se não é ele o mais cruel. Se as nossas decisões não são o mais cruel que, na vida, temos de enfrentar.



Esclarecimento

Eu é que sou o drama em gente.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Estes cabrões fazem isto sentados.

Já devia estar na cama. Acontece que o dever é uma puta e esta transcrição fonética é impagável. Votei Woolf, pelo ar submisso. Costumam ser as piores.

Microdiálogo apaixonado para um melodrama de Douglas Sirk

- You men are all the same.
- Allow me to disagree, sweetheart. There are only two kinds of men in this world.
- Then what kind of man are you?
- The wrong kind.

(Ia jurar que já ouvi isto nalgum lado. Mas, até ver, os direitos são meus.)

Post para dizer muito rápido e clicar no primeiro link de saída que aparecer à frente

- O seu cão morgue?
- Claro, é um Peter O'Toole.

Uísque

O senhor Bandeira consegue usar, no mesmo post, as palavras potestades, nenhures, pestilência, retesado, raposa e anexo. Ah, e também morgue.

Uso sempre as mesmas palavras. Sinto-me usada.

Anatomia da saudade














Vês? Este tem mais vida do que cor. Convalesce nele, abandona a palidez do pensamento. Faz.

Contra-relógio

«Este «acontecimento» é um facto. E o que é um facto? Um telegrama das agências de notícias.
(...)
Mas voltemos a Carlos, o nosso homem da linha de Sintra. É a primeira vez que se fala dele. No entanto, tem uma história. Estava prestes a celebrar o seu 48º aniversário. Uns dias antes, pelas 6 horas da manhã, postara-se no cais. Não havia passageiros. Inclinou-se para ver as luzes da locomotiva. Depois, depois
passou a ser um facto
.»

Detenho-me na parte daquele post que não é sobre a vida - isto é, na parte daquele post que não está escrita. Sou contra a uniformização noticiosa, que é bandeira frequente das agências de notícias. A uniformização noticiosa é parte de um flagelo global que, por medo da teoria, não me atrevo a baptizar de uniformização geral. Mas é.

Não gosto de factos e quem escreveu aquele post tocou no cerne desta minha urticária (salvo seja). As boas notícias - e, no fundo, tudo o que na vida é bom e, sendo bom, é útil (passo o platonismo) - são aquelas que não nos esquecem. Não são aquelas em que nós estamos, não é isso que quero dizer. As boas notícias são aquelas que, num ou noutro momento, se lembram de nós e nos agarram. O jogo, no fundo, é esse. São as notícias que nos agarram. Acho que a boa notícia não é, apenas, mérito de quem a protagoniza. É muito mérito de quem a escreve. E é, acima de tudo, o mérito de quem a lê; de quem se sujeita a ser lembrado, magnetizado de novo pela boa notícia, quando menos espera.

Os leitores compulsivos de notícias estão, sobretudo, à procura de boas notícias. A vida, já de si monótona (e de mim, e de todos nós), vai-se monotonizando. O azul, na vida, em vez de se esbater como numa camisola ao sol durante dias a fio, torna-se tão azul que nunca, mesmo para um daltónico, poderá deixar de ser azul. O desafio da boa notícia é colorir o real. A boa notícia realiza o real e, nesse sentido, tudo o que é azul passa também a ser mais azul. Só que esse azul passa a coexistir com o branco, o preto ou o amarelo.

Neste momento, e para mim, o Carlos não é um facto. Porque sinto uma certa bondade, uma beleza e uma utilidade nas luzes de um comboio que venha na minha direcção. Talvez amanhã, se aquele post nunca tivesse sido escrito, o Carlos voltasse a ser um facto para mim, porque as melhores notícias de suicídios que li foram aquelas em que o suicídio não chegou a acontecer. Celebro a vida. Só aprecio a inexistência daqueles que nunca chegaram a nascer (e, é claro, dos grandes filhos da puta); é por isso que, muitas vezes, em vez de colocar a corda ao pescoço, desejo nunca ter existido (infelizmente nunca o desejei o suficiente para me convencer de que era invisível).

Se calhar essas boas notícias não são boas pela competência de quem as escreveu, nem pela qualidade dos seus protagonistas e, muito menos, pelas características de quem as lê e do tipo de leitura que faz quem as lê (atenta, interessada, obrigada, diagonal, oportunista - para avançar uma pequena tipologia dos leitores de notícias). Se calhar, estas notícias são boas porque nunca serão factos. E nunca serão factos porque não é atrás delas que as agências de notícias vão. Não há, no suicida falhado, carvão para a locomotiva essencial do trabalho de uma agência noticiosa: a sua vocação matemática, estatística, factual. Um tipo que tentou matar-se e não conseguiu não existe, é igual a todos nós que, querendo morrer, nunca nos matámos. A todos nós que, querendo viver, nunca nos dignámos a fazê-lo para todo o sempre.

56

O porco agridoce é uma mentira. Porque há sempre uma parte do tempero que prevalece. Ou do próprio porco.

Sou hipócrita. Por isso é que nada me sabe pior do que o fundamento.

As pessoas que eu não sei enganar são as minhas preferidas. São também elas que me ensinam mais. O erro não ilumina por si próprio, é preciso haver quem carregue no interruptor.

Acho digno o princípio de que ninguém escreveria um livro que não fosse capaz de ler. Este blogue não é, portanto, digno.

sábado, 5 de abril de 2008

Revisão constitucional

Há, no mundo, apenas dois tipos de pessoas: umas e outras.

Estou convicta de que há pessoas que vão aos blogues dos outros para os verem falar mal de si próprios. Como vêem, sou uma dessas pessoas. De outro modo, não estaria a considerar a possibilidade de o caro leitor vir cá para me ver fazer o mesmo.

Gostava de ser fotogénica, mas nem os halogenetos de prata gostam de mim.

No dia em que nos entendermos, eu e eu, o diálogo que ainda não acabou connosco há-de acabar-se. Nesse dia, pelo menos, saberei o que fazer. Calar-me é apenas uma das hipóteses.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Fundamentalismos

Só gostar de letras serifadíssimas.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Vou ficar adepta da transmissão de funerais online. Posso, finalmente, acompanhar alguém à sua última morada com o mesmo esforço que faria para assistir a um travelling de Manoel de Oliveira, sentada no sofá.

Não gosto da Ana de Amsterdam e nem saberia enunciar muitos motivos para isso, o que não me impede, num ou noutro momento de loucura, de concordar com o que diz. Nunca, isso é sagrado, concordar com o modo como diz. Portugal não merece o Fausto (que é sempre um bom motivo de harmonia entre as gentes), mas o Alentejo não pertence a ninguém. Enfim, talvez ao Grande Sacana.

Tendo, com alguma facilidade, a desvincular-me de todas as actividades que requerem certa disciplina. Não tarda, morrerei. E, daí, talvez acabe por viver.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Breve maltratado das coisas que não existem [42]

Sinto-me expropriada se alguém me diz que tem saudades minhas.

Família

Aborrece-me a família fóssil, instituída, tragédia consumada da nossa sociedade. Gosto, no entanto, da ideia de família. Gosto de imaginar a família, de lhe dar, nos limites do meu pensamento, a graça, a estranheza e o carácter que singulariza, por exemplo, as famílias da literatura. Queria, por exemplo, que a minha avó, em vez de ver novelas e ouvir todos os dias o mesmo disco do Pavarotti, fosse viciada no jogo. Há boas histórias de família que não são, necessariamente, as da minha família. Gosto de ouvir histórias de família porque as histórias de família são, quase invariavelmente, histórias de guerra; com uma diferença: na família não há heróis e, sem conformidade, a única solução é o degredo.

sábado, 29 de março de 2008

Aniversário

Parece que este blogue hoje faz um ano. Não devia descontar da data os dias em que esteve morto?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Pois comigo a escrita inteligente dos telemóveis não funciona.

Perdão, mas a campanha, aqui, continua.

«Nasce e cala-te», que eu quando for grande quero escrever assim. Para isso, é claro, ainda me falta nascer.

Quando fazemos amor, o amor já estava feito.

Plastica quem não pratica













Via.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Preconceito

Nunca esperei viver para ver o Público citar o Correio da Manhã.

Breve maltratado das coisas que não existem [41]

Nunca entendi a expressão fazer pouco de. Porque é que nunca ninguém faz muito de nós?

quarta-feira, 26 de março de 2008

O que nos faz falta a todos

A miúda-que-lutou-com-a-professora-para-reaver-o-telemóvel foi palerma. Por mais comprometedor que fosse o conteúdo do aparelho, a miúda-que-lutou-com-a-professora-para-reaver-o-telemóvel (parece-me óbvio que aquilo não foi uma agressão) devia ter confiado na obrigação da professora de não violar a privacidade dos seus alunos. A professora violou o direito à propriedade, tal como a aluna não cumpriu o dever de estar na aula como se está numa aula, para aprender ou, pelo menos, para não abrir o bico enquanto o professor diz coisas que não lhe interessam mas que ela, por obrigação, tem de ouvir. Uma professora que tira um telemóvel a um aluno é um caso mais comum nas escolas do que se pensa. No início da febre celular, vi bastantes professoras (não falo em professores porque, em relação a esses, parece sempre haver mais respeito) fazer algo semelhante e, nessas alturas, não as vi como vítimas. Vi pessoas desesperadas a tentar cumprir uma missão - sim, porque há muitos professores que ainda vêem a profissão como uma missão, seja ou não o caso daquela professora com quem a aluna lutou. A miúda foi palerma porque não pensou. Não me venham, por favor, dizer que é isso que, habitualmente, fazem os miúdos. Mentira: os miúdos pensam, às vezes, mais e melhor do que os outros.

Aquela miúda, além de palerma, foi mal educada. Também porque tratou a professora por tu, mas sobretudo porque a professora deve tê-la avisado um milhão de vezes para largar o telemóvel e prestar atenção à aula. Sabia que é proibido utilizar telemóveis nas aulas. Iria, com certeza, recuperar o objecto no final da aula. A professora também foi palerma. Outra, no caso dela, ao mínimo sinal de luta, entregava o telemóvel e mandava a miúda para a rua. Sei que isto é subjectivo: os professores não gostam de mandar os alunos para a rua e há muitos que, quando lhes é feito o pedido, recusam sair. Tenho curiosidade, por exemplo, de saber se o miúdo que filmava não saiu logo recambiado para casa. Foi ele, naquela sala, a maior besta que eu vi. No fundo, igual a todos nós, que vemos e revemos as imagens e, como ele, não somos capazes de deixar de fazer daquilo entretém e uma pseudo-discussão pública de valores e ideais das nossas políticas públicas. A miúda-que-lutou-com-a-professora-para-reaver-o-telemóvel não aceitou uma privação que nos faz falta a todos.

Desculpem lá, não acham que estão a exagerar?

«Ministério Público quer apurar se houve ilícito penal
26.03.2008 - 09h21 PÚBLICO»

terça-feira, 25 de março de 2008

O estagiário não remunerado

passava horas no messenger. Um dia, foi apanhado pelo chefe que lhe disse que não era para aquilo que não lhe pagavam.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Como dizia o Chico

Através do Who Links to Mea minha dose diária de narcisismo – fui parar ao blogue Janela Indiscreta de Pedro Rolo Duarte (PRD). O post que me cita identifica, a propósito de uma coisa que escrevi sobre o plágio de Ferreira Fernandes (FF), uma tendência na blogosfera: a de funcionar como “posto de vigia avançado sobre a sociedade”. No caso do meu post e daquele “Um ponto é tudo” de FF, PRD via os blogues como instrumento de fiscalização da comunicação social.

Resumindo a história, PRD sugeriu que FF teria escrito uma crónica dizendo que tinha plagiado antes de que alguém descobrisse que a tal crónica (se é que podemos chamar crónica ao exercício de brevidade celestial que FF faz, diariamente, no DN) era semelhante a uma que havia sido publicada no El País. FF respondeu a PRD: “O meu problema com aquela crónica não foi o de tentar esconder algum erro. O meu problema é que ela era banal.” Penso que, ao ler a crónica, entendi a mensagem e, por isso, escrevi que “já está tudo escrito” - conforme dizem os ventos do Norte, parece que já é assim desde a Babilónia Antiga. O plágio-crime, para mim, é esse: o da banalidade (que é também, às vezes, o da preguiça). O outro é copy/paste; não é plágio, é estupidez (que nem chega a ser preguiça).

Discordo de PRD usando a minha experiência de blogger e, sobretudo, considerando a minha experiência – muito mais credível – de leitora de blogues. Não gosto de chicos espertos. É o equivalente a dizer que não gosto de pessoas que usam os blogues para emitir opinião. Porque a opinião nem sempre é pertinência e originalidade. A opinião é a banalidade do século: toda a gente tem uma e quer, por força, exibi-la - não sou a primeira nem serei a última a dizê-lo. Também não sou excepção: muito do que digo, se não for tudo, seria absolutamente prescindível se eu não tivesse a certeza de que não estou a entrar em casa de ninguém para pregar sem pedir licença.

Discordo de PRD porque acho que, para a blogosfera, comportar-se como posto de vigia da comunicação social seria uma presunção e uma chico espertice tremenda. Tenho percebido que os blogues que lincam notícias e falam de casos mediáticos atraem mais visitas do que os outros. Falar do que se fala nos media é uma estratégia de publicidade eficaz em blogues; é por isso que não deixo de apreciar aqueles que conseguem manter-se minimamente à margem da actualidade.

Uma coisa parece evidente: é que a actualidade deixou de ser uma bengala exclusiva dos jornalistas, o que complica o desafio da criatividade para os jornalistas e o facilita para os bloggers. Nesta vertigem, e sem querer ser pessimista, parece-me que o jornalista sai mais prejudicado do que os outros intervenientes – bloggers e leitores, ou bleitores. Qualquer chico esperto comenta no blogue o que lê no jornal. E, sejamos justos, é justo que o faça. Mas, nessa vertigem – a tal – o papel de leitor perde para o papel de blogger (no caso do bleitor chico esperto). A catástrofe, para o blogger como para o jornalista, é o que mais faz render a criatividade. Escrever sobre um bom artigo ou sobre uma boa opção editorial não tem piada nenhuma e, verdade seja dita, ler ainda tem menos.

O Público, que já tinha convidado Miguel Esteves Cardoso para dizer, no jornal, o que mais odiava no jornal (passo a redundância), vai tornar tudo isto mais fácil (descobri aqui), colocando no seu site links para os blogues que citam as notícias da edição online. É justo para as duas partes e, sobretudo, muito bem pensado. Muitos bloggers vão, talvez, deixar de lincar notícias do Expresso ou do DN para lincar as do Público, que lhes dão visibilidade e retorno comercial. Como chica esperta, vibro com a ideia. Como leitora, desconfio. Se fosse jornalista, escrevia sobre o assunto.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Mestre Nhabal

À saída do metro, entregaram-me um folheto do Mestre Nhabal. Pensei que me ia oferecer os serviços do costume: resolução de problemas de dinheiro, cura de impotência sexual e males de saúde afins, resolução de conflitos judiciais e familiares, mas também profissionais e amorosos. Enganei-me. O Mestre Nhabal não é como os outros profissionais da esoteria. Realiza um serviço inédito no ramo: “afasta e aproxima pessoas amadas com rapidez”. Penso, num futuro próximo, aderir a pelo menos uma das modalidades.

Vermelho

Vinha a descer a Avenida da Liberdade e vi uma mulher. Balançava-se violentamente para a frente e para trás, sentada no banco do jardim, deixando cair e voar os cabelos arruivados. Estava frio e o meu comboio nunca esperou por mim. A senhora parecia em transe, parecia nua da cintura para baixo. Da cintura para cima, vestia vermelho. Vi-a de longe e ia-me aproximando dela porque o meu caminho era aquele e o meu comboio nunca esperou por mim. De repente, o semáforo que já tinha deixado para trás (o tal que, segundo as contas de uma recente reportagem da SIC, amadurece em 16 segundos), abriu-se à minha passagem peoa. Antes de passar para o outro lado, uma ambulância atravessou-se no caminho que se me oferecia livre. Ia com pressa, como eu, que a vida, como os comboios, não é muito paciente quando tem para onde ir.

Do outro lado da rua, sabendo que o meu comboio nunca esperou por mim, tentei ouvir o que a senhora dizia. Ia gritando umas coisas que eu não consegui entender. Parei para tentar, apesar de o meu comboio nunca ter esperado por mim. Ouvi e percebi qualquer coisa que a senhora disse; uma expressão que, no momento, me impressionou muito - a ponto de se calarem todos os meus pensamentos. O diagnóstico estava feito: a senhora era louca e, como o meu comboio nunca esperou por mim, desci a Avenida olhando, de vez em quando, para o outro lado da rua, às vezes virando a cabeça para apanhar o melhor ângulo daquele banco onde se sentava aquela senhora. Até que perdi a conta dos meus passos e perdi aquela mulher de vista. Não me lembro de nada do que ouvi daquela mulher. Não me lembro, sequer, de como era a sua voz. Se eu tivesse descido a Avenida daquele lado, se eu tivesse falado com aquela mulher, talvez o meu comboio tivesse esperado por mim. Nunca o saberei.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O equinócio é um preguiçoso a cavalo?

E da disfunção pública, ninguém fala?

quarta-feira, 19 de março de 2008

Acabo de ver na TV e não me esqueço tão cedo

Breve maltratado das coisas que não existem [40]

- Onde fica São Vicente de Dentro?
- Fica no Piauí, no Brasil.

terça-feira, 18 de março de 2008

Jazz com Pretas [14]

Eu quero

Mexia

Algo me diz que, de ora em diante, a programação da Cinemateca vai incluir muitos filmes com gajas boas.

segunda-feira, 17 de março de 2008

De cada vez que vou à vida deixo a vida para trás. E vivo nos intervalos da vida, que não sou mais que ninguém.

Andam a roubar padarias na zona onde moro. Será pelos brioches?

Uma pessoa

«Sente muita responsabilidade em ser o representante do Papa numa das nunciaturas mais importantes do mundo?
Bem, eu procurei sempre fazer o melhor que posso o meu dever, tentando agradar só a uma pessoa, que é ao Senhor.»

Entrevista a D. Manuel Monteiro de Castro, embaixador do Vaticano em Madrid, por Pedro Ivo Carvalho, na NS' de 15 de Março de 2008 (página 23)

Ponham lá o Zapatero a falar português...

Hoje recebi boleia de uma pessoa que, quando lhe perguntei onde morava, mudou o trajecto para me mostrar a sua casa. Pouco antes, a pessoa que me deu boleia tinha, em caminho, dado boleia a uma outra pessoa que nos fez subir até ao seu apartamento para no-lo mostrar com a afeição de um familiar e o pormenor de um mediador imobiliário. Ainda antes disto, rejeitei um convite para "ficar para jantar" e desprezei a cerimónia para aceitar "pelo menos uma bolacha" antes de sair. Gosto de pessoas.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Ou

quinta-feira, 13 de março de 2008

Eliot Spitzer

A questão é velha e simples: Eliot Spitzer era um bom Governador? Não sei. Fez carreira, segundo o New York Times, a perseguir gente corrupta e, até, algumas redes de prostituição. Estava metido numa, era o cliente número nove. O que deve à coerência um moralista que vai às putas? Nada. E o que deve ao carácter? Só Deus sabe. O que deve à sua mulher? Ela é que saberá do teor do compromisso. Não me importo nada com a incoerência ou com a falta de carácter, até lhes acho piada. Penso, por isso, que Spitzer foi um homem honrado. Mais honrado do que aquele Bill Clinton para quem receber sexo oral (se admitirmos que quem o faz não recebe nada, uma ideia que eu não acarinho de todo) não era ter relações sexuais com Monica Lewinsky. Spitzer ganha porque disse a verdade (repare que repórter do NYTimes se chama Nicholas Confessore, não podia ser mais oportuno).